Segunda-Feira, 16/08/2010, 09:17h
O filme é uma experiência e não um simples puro entretenimento. É a marca “Christopher Nolan” de garantia mais uma vez na tela do cinema.
De que são feitos os sonhos? Uma resposta complexa: de sonhadores e suas realidades.
Poderia dizer que eles são feitos de idéias, ou simplesmente, de “pessoas”. Mas há quem diga que não são somente os humanos que possuem tal dádiva. No novo filme de Christopher Nolan, o sonho, material insólito que já foi trabalhado outras vezes no cinema por outros gênios, é a chave da trama e também, o motivo pelo qual o espectador mergulha, literalmente, de maneira profunda na história.
TRAMA
À primeira vista, o que descrevi aqui parece complexo, mas a complexidade surge da tentativa de descrever uma experiência, por isso, vamos ao enredo base do filme. “Inception” (Inserção), ou “A Origem”, como foi traduzido no Brasil:
Num futuro próximo, não delimitado, homens são treinados para um novo tipo de espionagem, que permite: entrar na mente de outras pessoas por meio dos sonhos e roubar segredos importantes, como informações sobre empresas ou o passado da vítima.
Os profissionais da arte de roubar informações em sonhos são chamados “extratores”. Na história, acompanhamos um grupo liderado por Cobb (Leonardo DiCaprio), que na tentativa brilhante de extrair uma informação do empresário japonês Saito (Ken Watanabe), comete uma falha e precisa se submeter às regras de sua vítima, que agora – por circunstâncias que não vou revelar aqui – obrigará Cobb a fazer algo muito mais ambicioso: inserir uma idéia em alguém. Eis aí a “inserção”, ou “Inception”.
Assista ao trailer:
Se fosse possível escolher um ponto de início da história, é provável que o momento da “proposta” - no qual Saito obriga Cobb a aceitar o serviço - seria a melhor a escolha, porém Nolan criou uma teia de histórias tão minuciosamente e interligada que é possível assistir ao filme por diversos ângulos e mesmo assim, você terminará no mesmo ponto. Coisa de gênio. Coisa de sonho.
Falando em genialidade, existem muitos cinéfilos carrancudos que detestam utilizar o termo “gênio”, como se isso fosse uma ofensa pessoal. Mas sinceramente, alguém que consegue realizar um filme capaz de manter a atenção de seu espectador e criar a sensação de catarse praticamente completa, numa época em que o 3D e a internet comandam as atenções, é de fato, algo memorável.
SONHO X REALIDADE
O filme não é pedagógico, não existe um passo-a-passo, um excesso de porquês costumeiros de Hollywood. Você cai de pára-quedas na história e precisa sozinho, entrar e sair do labirinto que é a trama. Se você já viu “Amnésia”, outro filme Nolan, sabe do que estou falando.
Em certos momentos, existem explicações profundas sobre as funcionalidades dos sonhos e os riscos de tentar inserir uma idéia em alguém. Sobre os sonhos, é importante perceber que a “realidade” dentro deles é muito mais importante do que a fantasia. A vítima precisa acreditar que aquele sonho é real, por isso, a equipe de Cobb precisa de tantas pessoas, incluindo uma função primordial do processo: o arquiteto.
O arquiteto desenhará o mundo na mente do sonhador e o transformará no que desejar. Qualquer país, qualquer lugar, e se necessário dobrará as leis da física ao seu favor.

Para função foi escolhida a jovem Ariadne, interpretada por Elle Page. Ariadne precisa montar o labirinto de cenários na mente do sonhador. Não por acaso, o nome da personagem faz referência a princesa de Creta, que ficou conhecida na mitologia Grega por ajudar o herói Teseu a sair da labirinto e vencer o Minotauro. Neste caso, temos um pequena recriação do mito com Ariadne, Cobb (assumindo o papel de Teseu) e Mal, a esposa de Cobb, que poderia ser a representação do Minotauro.
DESAFIO
Quando o plano é extrair uma informação, cria-se uma armadilha na qual o sonhador entrega seus segredos sem ao menos perceber, porém, a “idéia” e tratada como algo extremamente delicado e mutável. Em certo momento, Arhtur (Joseph Gordon-Levitt), diz a Saito “Não pense em elefantes”, e logo em seguida pergunta, “No que você está pensando?”, Saito responde “Em elefantes”.
A idéia é uma semente quase imprevisível que precisa crescer sozinha no indivíduo.
CRISE
A história se torna ainda mais interessante quando mostra que os sonhos são um material que pode ser moldado. Isto não sou eu quem digo, ou mesmo Nolan, há estudos que comprovam isso. No caso do filme, eles “precisam” ser moldados para que se faça o cenário perfeito. No entanto o sonho é um organismo vivo, que pode entrar em colapso se um de seus sonhadores/invasores, não conseguir controlar seus próprios demônios. Este é o caso de Cobb, que guarda muitos segredos em seu inconsciente.
INCEPTION X MATRIX
Já li muitos textos que tem comparado a trilogia “Matrix” ao filme “Inception”, mas depois de assistir o filme, vi uma boa distância entre os dois. O que há de mais próximo é a discussão sobre o que é a realidade. Quando se vive um sonho por um longo tempo, as realidades começam a se confundir. Digamos que essa seria a idéia mais próximo dos dois, no entanto, pontuei algumas coisas importantes:
1- Em Matrix, as Leis da Física são distorcidas frequentemente para que os invasores da Matrix possam andar livremente.
2- Em Inception, as Leis da Física podem ser alteradas, mas não são. Eles precisam que o sonhador acredite que aquilo é realidade, por isso, ninguém sai voando ou dobrando cidades à todo momento. Tudo é muito sutil
3- Em “Matrix”, todos estão conectados no mesmo programa/sonho, enquanto em Inception, cada pessoas possui um complexo universo dentro de si.
Há outros pontos, mas creio que estes sejam os mais importantes.
A VOLTA DO SCI-FI
“Inception” é o resultado do trabalho de um diretor competente que teve carta branca de seus chefes (Warner Bros.), após o sucesso merecido na franquia Batman. Sem roteiros forçados e com um projeto pessoal, à exemplo de “O Grande Truque”, Nolan trouxe mais uma vez um filme marcante que deixou a sua marca no gênero pouco explorado por ele, o Sci Fi.
Devido à sutileza da película, algumas pessoas não chegaram a ligar o gênero ao filme, mas “Inception” é uma ficção científica da melhor qualidade. Temos um futuro não delimitado, sem exageros ou engenhocas, tudo parece com o que temos hoje, exceto pela maleta que conecta as pessoas aos sonhos. Aliás, uma maleta que também não tem muitas explicações, pois é só apertar o botão e sonhar.
A INSERÇÃO
Ao final, saí do cinema com sensação de que Nolan quis invadir os sonhos da sua platéia, deixando a sua idéia girando – ou não, como o pião do personagem Cobb, objeto enigmático do filme. A sua imaginação pode mergulhar tão profundamente, que quando você olhar para cima, pode se surpreender com que estava guardado por lá.
RÁPIDAS
>>Não gosto de música francesa, mas passei a simpatizar mais com a música “Non, Je Ne Regrette Rien”, de Edit Piaf, que possui um significado especial no filme. Além de homenagear a cantora e sua intérprete, Marion Cotillard. A letra se encaixa muito bem.
>>Falando em letras, o poema “Um Sonho num Sonho”, de Edgar Allan Poe, traduz boa parte da idéia do filme.
>>Leonardo de DiCaprio provou mais uma vez que ídolo teen dos anos 90, ficou nos 90.
>>Há uma ótima homenagem aos filmes de James Bond com um “sonho na neve”.
>>Joseph Gordon-Levitt, o clone de Heath Leadger, saiu-se muito bem como Arthur e é provável que Nolan o leve para o próximo filme do Batman. Ele pode surpreender bastante. A cena em que Arthur luta em gravidade zero ao som de Piaf é memorável.
Agora, levante daí e vá logo ver o filme!
Até a próxima!
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>> Por Diego Andrade - repórter do Diário Online e editor do blog paraense 100Grana.
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