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Segunda-Feira, 16/08/2010, 12:09h

Filho revela mais uma faceta de Baden Powell

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Durante a infância, na França e na Alemanha, a casa dele vivia repleta dos sons emanados do maior violão do Brasil. A música era o lugar comum. Não cessava, fosse durante uma leitura de jornal ou nas frequentes e adoradas transmissões das corridas de Fórmula 1. Em uma espécie de fuga, justamente pelo excesso de melodias e harmonias caseiras, as lembranças mais vivas para ele são as não musicais, como os passeios de bicicleta e as brincadeiras de caubói. Philippe era o xerife e o pai, Baden Powell, além de grande compositor e melhor violonista da história do País, era o vilão.

Não parece tanto tempo, mas no próximo mês faz uma década que Philippe convive com a saudade do pai, após a morte de Baden no dia 26 de setembro de 2000. O violonista deixou lições afetivas, musicais e artísticas ao filho, como encarar o ofício com o afã e o alumbramento diário das descobertas sonoras, a postura no palco e transmissão de emoção ao público.

Sem traquejos pedagógicos, Baden guiava-se pela informalidade com o rebento. Chegou a corrigir o posicionamento da mão esquerda de Philippe ao violão, mas quando o garoto tinha sete anos, na Alemanha, o encaminhou a um professor dotado de todo o didatismo que ele, Baden, não tinha para ensinar música para a criança. “Já que ele não podia me ensinar, acabei procurando outro instrumento. O que era uma curiosidade de criança aos poucos tornou-se interesse real e nunca mais larguei o piano”, conta Philippe.

Aos 32 anos, morando há cinco em Paris com a esposa e uma filha, ele apresentou em São Paulo, no Auditório Ibirapuera, o ‘Afrosambajazz’, disco em homenagem à obra do pai e concebido em parceria com Mario Adnet (na foto, ao lado de Philippe Powell), contemplado na última quarta-feira (11) como melhor arranjador pelo álbum no Prêmio da Música Brasileira.

O disco (um dos melhores de 2009) foi lançado no ano passado, mas só agora entrou em turnê, após captação de recursos para circulação, passando por Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio e Salvador. A obra serve para reparar algumas injustiças em relação a Baden. Naturalmente sempre visto como exímio violonista, a faceta deste grande compositor é aflorada em Afrosambajazz, graças à formação da banda, em sua maioria de sopros, revelando toda a influência sofrida por Baden de seu professor Moacir Santos.

Philippe usa a fala mansa e articulada, transparecendo uma simplicidade assombrosa, para falar de referências como Ed Gomes (contrabaixista dos anos 70 que acompanhava Bill Evans), Chick Corea, Scott Lafaro, Rachmaninoff, Bach, Mozart e, obviamente, de Baden e das diferenças técnicas e estilísticas entre ele e seu pai, como, por exemplo, seu modo sóbrio e elegante de fazer o piano falar, fazendo jus a seu lado de arranjador. “Baden era um virtuose. Eu tenho estudo para usar a virtuosidade no piano quando a obra exige, mas não é sempre que é necessário. No disco, me concentrei nos arranjos, o piano é mais um complemento É como você ter um monte de ingredientes para fazer um prato, tem de saber usá-los”, explica Philippe.

O álbum teve de amadurecer com calma, já que o projeto surgiu em 2002. Como forma de respeito, apenas dois anos após a morte de Baden é que o filho resolveu recorrer aos pertences deixados pelo pai na casa da família, na Barra da Tijuca. Revirando gavetas, encontrou 50 partituras inéditas de Baden. Nove delas seguiam claramente a série dos afro sambas lançados por Baden e Vinicius de Moraes em 1966, daí a escolha por gravá-las pela primeira vez. “Meu pai conhecia o Mario e me disse que se um dia eu precisasse de um ‘cara da pesada’ que ele me ajudaria. O que mais me intrigou foi que meu pai não escrevia nunca, sempre guardava e compunha de cabeça. Se deixou essas escritas é que queria que ganhassem vida”, conta Philippe, sem saber ainda o que fazer com tantos temas inéditos. Sem pressa, ele dá provas de como tratar a obra de Baden, colocando-a em seu devido lugar, lá no alto, e de que, em suas mãos, ainda há verdadeiras bombas a serem reveladas pelo legado de um compositor genial. (AE)

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