Sexta-Feira, 08/10/2010, 16:16h
No ano em que completaria setenta anos, o ex-beatle parece revelar uma faceta mais orgânica do que a própria lenda.
No dia 9 de outubro o ex-beatles John Lennon, se fosse vivo, completaria 70 anos. O jovem rebelde nascido em Liverpool, região norte da Inglaterra, conquistou o show business na fase áurea do ‘rock and roll’ e da indústria fonográfica, e acabou desbravando uma militância política anti-racista e anti-bélica que não se repetiria na indústria cultural com tamanha verdade. Além disso, ele ajudaria a construir a própria imagem, como uma das lendas do mundo musical.
Como Belém do Pará, Liverpool era, nos anos 1940, uma cidade portuária situada na região norte, a menos favorecida do país, e com uma economia que girava em torno dos navios cargueiros, containers, do cheiro de pescado, das sacas de grãos e cargas de exportação. A diferença entre a cidade inglesa e nossa terra tropical, era o frio e o agravamento da situação de crise que a Segunda Guerra tinha deixado. O destino de um garoto do subúrbio, filho de um lavador de pratos que vivia embarcado nos navios turísticos, e de uma jovem mãe um tanto transgressora para a época, por não se ligar muito na tríade tradição, família e propriedade, não poderia ser muito imprevisível. O pequeno John Winston Lennon – o nome do meio era uma homenagem ao premier britânico Winston Churchill, que ele substituiria em 1968 pelo sobrenome Ono, da esposa japonesa – acabou criado por uma tia, antes mesmo que sua mãe morresse atropelada por um policial bêbado, quando ele ainda tinha 17 anos. Ele, só reencontrou o pai depois de adulto, quando já era rico e mundialmente famoso. Os dois n unca se entenderam, John o sustentou até que tivessem uma briga violenta e definitiva em 1970, efeito da Terapia do Grito, que John frequentava sob os cuidados do doutor Arthur Janov.
Talvez, o mais importante de ser lembrado, fora o sucesso dos Beatles, a inovação estética lançada a partir do álbum “Sargent Pepper`s, em 1967, mérito um tanto maior de Paul McCartney, é verdade – deve ser o papel especial ocupado por John como artista integral, o homem de vanguarda, o que naquele tempo significava um encontro entre a atividade pública do criador e o seu posicionamento político diante das transformações do mundo contemporâneo.
BIOGRAFIAS
Em 2009, tivemos no Brasil pelo menos dois produtos realmente interessantes que ressaltam esse aspecto. O filme “Os EUA vs. John Lennon”, documentário de David Leaf e John Scheinfeld, que aborda o envolvimento profundo de John e Yoko com grupos de ativismo político nos Estados Unidos, o que, segundo a hipótese do filme, teria concorrido para a expulsão de John da América e – fica no ar – para seu assassinato, em 1980. O filme traz o depoimento de figuras tão importantes para o cenário político que contornou o polêmico governo de Richard Nixon, como o romancista paquistanês Tariq Ali, o cientista social Noam Chomsky, os ativistas Angela Davis e John Sinclair (ambos agraciados com canções de protesto de John e Yoko), Bob Seale, fundador dos “Panteras Negras”, movimento americano precursor nas causas anti-racismo, e Jerry Rubin, fundador do Partido Internacional da Juventude.

Poster do filme baseado na vida de Lennon
A participação de John em comícios, passeatas, e concertos de protesto, como o “The John Sinclair Freedom Rally”, em 1971, demonstram a força do apoio de um artista aos movimentos sociais, como foi também o caso das participações na televisão, especialmente as do “David Frost Show”, no mesmo ano, quando John e Yoko apresentaram a canção “Attica State”, sobre os presos políticos; o “Dick Cavett Show”, quando apresentaram o hino feminista “Woman is the nigger of the world” sob o aval do movimento negro da Califórnia; e do “Mike Douglas Show”, em 1972, numa maratona de cinco episódios, quando receberam Bob Seale e Jerry Rubin.
John e Yoko recebem o apoio do movimento negro americano e cantam “Woman is the nigger of the world” no "Dick Cavett Show":
Além, é claro, da campanha “War is Over”, contra a guerra do Vietnã, que espalhou outdoors nas principais cidades dos cinco continentes, numa primeira manifestação ativista midiática, que levou John e Yoko ao encontro do teórico canadense das comunicações, Marshall McLuhan, em 1969.

Um dos outdoors que foram espalhados pelo mundo, na época, “A guerra acabou – se você quiser”
Outro produto foi baseado na vida de Lennon foi a biografia simplesmente denominada “John Lennon, A Vida”, do jornalista britânico Phillip Norman, que em 1981 já havia publicado uma biografia dos Beatles, além de Elton John, Buddy Holly, e dos Rolling Stones. O volumoso livro de Norman publicado em meio a polêmica, pois houve a desaprovação de de Yoko Ono e Paul McCartney, ambos depoentes da pesquisa extensa realizada pelo biógrafo. A viúva de Lennon alegou que o autor havia tratado seu biografado com certa dureza, no entanto, Sean Lennon, filho do casal, escreve um comovente posfácio para o livro. O fato é que, em vinte anos de leituras as mais diversas sobre os Beatles, o livro de Phillip Norman, pareceu o texto mais completo e envolvente que já me passou pelas mãos dos leitores, superando a excelente biografia de McCartney, escrita por Barry Miles, amigo pessoal do baixista. Ao contrário dele, Norman não cultivou uma relação com John, mas recolheu meandros emocionantes da vida pessoal desse artista que, depois de devoradas as mais de 800 páginas, ocupa, sem dúvida, a posição merecida de “intelectual orgânico”, aquele que se engaja nos interesses políticos e culturais de sua geração, de sua classe. O “herói da classe trabalhadora” viveu como lorde inglês - isto é fato - mas empenhou parte de sua obra, o que inclui naturalmente as canções e álbuns, mas também a literatura encravada de referências cômicas aos costumes vitorianos da cultura britânica, e às artes visuais, em desenhos, instalações, e vídeo-arte, que mergulhavam na crítica direta ou metafórica à sociedade ocidental e à própria indústria cultural, e na crônica de sua própria trajetória.

A volumosa biografia de Lennon escrita por Phillip Norman
Se o “Imagine”, o megahit radiofônico, é um hino ingênuo da geração pós-woordstock, há tantos outros tesouros perdidos em álbuns como o confessional “Walls and Bridges” (1974), o quarentão “Double Fantasy” (1980), ou o super militante “Some Time in New York City” (1972), que trazia uma capa na forma de jornal, uma instalação plástica com colagens de fotos entremeadas por mensagens subliminares e pelas letras das músicas, uma das fotos trazia o presidente Nixon e o estadista chinês Mao Tse Tung dançando alegremente nus.

A polêmica capa do LP “Some Time in New York City”
É bem verdade que o engajamento de John se acirrou após o seu envolvimento com Yoko Ono. A japonesa era sete anos mais velha que ele e vinha do restrito gueto de artistas performáticos de vanguarda. Ela foi membro do grupo Fluxus, de Georce Maciunas, tinha envolvimento com o compositor contemporâneo John Cage, e viajou pela América e Europa com seus “happenings” performáticos. Foi numa dessas exibições, na galeria Indica, em Londres, que ela e John se conheceram, ele acabou patrocinando o trabalho seguinte dela e, finalmente, se envolveram. Aliás, as minúcias em torno do divórcio de John com sua primeira esposa, Cynthia Powell, são especialmente escabrosos no livro de Norman.
A história de John Lennon chega aos setenta anos mantendo sua posição mitológica própria da “pegada” midiática. No entanto, com a era da informação, o volume de material interessante à disposição – dentre eles a reedição primorosa dos Cds dos Beatles, feita em 2009, e da carreira solo de John, esta mais pingada – torna mais possível o conhecimento desmistificado deste homem tão interessante e tão marcante para a cultura pop ocidental.
Na conferência sobre Comunicação e Música realizada este ano no Congresso da Intercom, em Caxias do Sul, que é o evento acadêmico mais difundido dos estudos da Comunicação Social no Brasil, o professor Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e pesquisador da UFRJ, citou uma frase de Lennon para falar dos ritmos urbanos na produção educacional dos jovens. “O rock é uma música instintiva que atinge você sem passar pelo cérebro. Ele vai direto para as vísceras”. E na simplória definição, o músico se referia ao poder corpóreo do ritmo pungente do rock nos anos 1950, época de sua juventude, a batida acelerada de origem negra fez a cabeça do menino John, mas, em algum momento, serviu para expressar sua visão sobre a sociedade, assim como acontecia com o blues e com o folk nos guetos rurais e nas periferias americanas, ou ainda, com o samba e o batuque nos quilombos e favelas do nosso país.
Se pudermos reler e revisitar parte da canção pop com olhos mais atentos, podemos perceber que debaixo da enxurrada de manchetes, fofocas, mediocridades, há, aqui e ali, o artista em sua atividade mais plena, seja na renovação estética de sua arte, seja na expressão de questões políticas, sociais, e culturais por meio da canção popular, do teatro, das artes plásticas, da literatura, ou do cinema. John Lennon foi certamente um artista pleno e, quem sabe, não estaria aprontando alguma coisa bem contemporânea, se vivo fosse.
A biografia de Phillip Norman revela os aspectos mais cotidianos da vida de Lennon no edifício Dakota, onde viveu seus últimos anos, tanto que a gente acaba perdendo um pouco a medida messiânica do ídolo para entrar na vida de um pai e homem de casa, que passava a manhã na cozinha preparando um peixe de forno e alimentando os gatos. As últimas linhas do livro foram lidas na sala de espera do dentista, lugar mais impróprio para reagir à descrição tão tocante da ausência daquele homem. Depois de narrar o assassinato, o autor deixa uma linha em branco e escreve:
“Dias depois, no apartamento 72, toda vez que a porta da cozinha se abria, três gatos saltitavam à frente para saudá-lo”.
É, caro John, a vida é o que te acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos.
Clipe de “Woman”, do último álbum, mostra o casal quarentão em performance
Texto: colaboração de Marcello Gabbay
Músico e Doutorando em Comunicação e Cultura pela UFRJ
Editor do Bomgá da Matá
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