Terça-feira, 19/04/2011, 03h43
Após três meses do início das aulas na rede particular de ensino e duas semanas na rede pública, a Universidade Federal do Pará (UFPA) divulgou ontem alterações na lista das leituras recomendadas para o vestibular de 2012 da instituição. Com isso, alunos que já estavam estudando o conteúdo antigo, terão que se adaptar às novas leituras.
Segundo a diretora do Centro de Processos Seletivos (Cepes) da UFPA, Marilúcia Oliveira, a discussão sobre a reformulação da grade curricular da disciplina de literatura já vinha sendo discutida há bastante tempo pela universidade. “Desde 2009 já havia uma discussão sobre essa reformulação, que foi elaborada por uma comissão de especialistas em estudos literários, que propôs as modificações”, explica. “A universidade está adotando como prova matriz de referência o conteúdo do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) que pretende explorar conteúdos regionais”.
A utilização de autores paraenses foi um dos critérios levados em consideração pela comissão para elaborar a nova lista, porém, não foi o único. Dentre os autores paraenses que compõem o novo conteúdo estão Marques de Carvalho, Dalcídio Jurandir e Benedito Monteiro. “A ideia é de fazer um rodízio entre os autores para não ficar sempre o mesmo autor. É um sistema cíclico de alteração”, informa o membro da comissão, Sílvio Holanda.
Segundo a UFPA, o conteúdo das leituras não era alterado há pelo menos cinco anos. Para que as obras cobradas no vestibular estivessem mais próximas do cotidiano dos alunos, a comissão teve que eliminar leituras anteriores, mesmo que mantivessem alguns autores. “Tivemos que abrir mão de textos da lista anterior para cobrar leituras mais longas. Por isso a necessidade de substituir”, aponta Sílvio. “Foram textos pensados porque estabelecem um diálogo com a atualidade. A facilidade de se correlacionar conteúdos também foi levada em consideração”, afirma Marli Furtado, que também faz parte da comissão.
Segundo ela, o grau de dificuldade do conteúdo anterior foi mantido. “Está no mesmo nível das leituras anteriores, é a mesma sequência didática. A obra mais complexa é ‘Macunaíma’. Quisemos um desafio, mas que está dentro do nível”, garantiu. “A ideia não é sobrecarregar a leitura, o aluno, pelo contrário. Um dos critérios utilizados foi a leitura leve”, aponta Elisabeth Vidal, que também contribuiu para as alterações.
Para o professor de literatura do ensino médio em uma escola particular da capital, André Belém, a alteração era necessária, mas deveria ter sido realizada antes do início das aulas deste ano. “Tava na hora de mudar, embora o público se renove sempre. Para a gente (professores), essas obras já estavam estratificadas”, concorda. “Mas para a gente que trabalha com o ensino médio fica difícil de elaborar as aulas porque ficamos com o tempo atropelado. Como lançar uma lista em abril? Por que não em dezembro?”, questiona.
Ele, que desde janeiro estuda com seus alunos o conteúdo da lista antiga, terá que utilizar estratégias que não concorda totalmente para poder repassar todo o conteúdo aos alunos. “Eu não concordo em ler resumo, queria que os alunos lessem a obra completa, mas mudar o conteúdo meses antes da prova dificulta. A UFPA tem que preparar o programa sempre no ano anterior”.
Para Geovana Siqueira, que está se preparando para o vestibular em um cursinho desde o começo do ano, as mudanças atrapalham, mas já são esperadas. “Como não é a primeira vez que estou prestando vestibular, eu já estou acostumada com essas mudanças da UFPA”. Ela conta que não sentirá muita dificuldade porque já conhece o processo seletivo da universidade, mas acredita que muitos vão sentir a mudança. “Muita gente vai sentir, principalmente quem já fazia vestibular antes porque já estava acostumado com as leituras antigas”.
Mesmo com a alteração de grande parte do conteúdo, alguns autores foram mantidos, assim como duas obras: os poemas de Fernando Pessoa e a sátira de Gregório de Matos Guerra. “Alguns escritores foram mantidos pela sua importância. Por isso, resolvemos manter o nome do Saramago, mas com outra obra”, informa Sílvio Holanda. (Diário do Pará)
NOVA LISTA
1- Lirismo amoroso nas cantigas trovadorescas.
2- Gil Vicente - O pranto de Maria Parda (monólogo).
3- Amor e desconcerto do mundo nos sonetos de Camões.
4- Lirismo (religioso e amoroso) e a sátira de Gregório de Matos Guerra.
5- Arcadismo em poemas líricos de Gonzaga e Bocage.
6- ROMANTISMO
6.1 Leitura dos poemas 'Navio Negreiro', de Castro Alves, e 'I-Juca-Pirama', de Gonçalves Dias.
6.2 Leitura do romance 'A pata da Gazela' de José de Alencar.
6.3 Leitura do romance 'A queda dum anjo', de Camilo Castelo Branco.
7- REALISMO, NAUTRALISMO E PARNASIANISMO
7.1 Leitura do romance de 'Esaú e Jacó', de Machado de Assis.
7.2 Leitura do romance 'O primo Basílio', de Eça de Queiroz.
7.3 Leitura dos contos 'Desilusão' e 'Que bom marido', do volume Contos Paraenses, de Marques de Carvalho.
7.4 Leitura das crônicas 'Trabalho Feminino', 'Antônio Conselheiro', 'Prostituição Infantil' e 'Recenseamento', de Olavo Bilac.
8- SIMBOLISMO- Leitura de poemas de Camilo Pessanha e Cruz e Souza.
9- MODERNISMO
9.1 Leitura de poemas de Fernando Pessoa (heterônimo: Alberto Caeiro).
9.2 Leitura de 'Libertinagem', de Manuel Bandeira
9.3 Leitura do conto 'O carro dos milagres', de Benedicto Monteiro.
9.4 Leitura de 'Macunaíma', de Mário de Andrade.
9.5 Leitura de 'Primeira Manhã', de Dalcídio Jurandir.
9.6 Leitura do romance 'A viagem do elefante', de José Saramago.
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