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Domingo, 24/04/2011, 01h56

Opinião: a encruzilhada do tecnobrega

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O tecnobrega é a trilha sonora de um conflito. Da classe média com a periferia e da música matemática e acadêmica com a criação espontânea e intuitiva. É também o choque da ordem com a informalidade e o caos urbano.

Daí ser compreensível que todas as questões envolvendo esse estilo musical sejam sempre cercadas de polêmica e argumentos apaixonados. Sejam eles contra ou a favor da música que mais toca nos bairros pobres de Belém.

O primeiro erro está em não saber separar o transtorno causado pela falta de ordem pública de um fenômeno cultural socialmente relevante. Sim, boa parte da população de Belém, independentemente da classe social, é mal-educada. Ela joga lixo na rua, lata de refrigerante vazia pela janela de seu carrão de luxo e considera um mero fato da vida importunar quem está por perto com um som insuportavelmente alto, não importando se é em casa, na praia ou no bar, fazendo tremer a terra como se fosse um DJ de aparelhagem. Ou mesmo sacar o celular do bolso para ouvir música no último volume dentro de um ônibus lotado.

É assim que funciona porque, em Belém, a ordem pública virou potoca.

E, na maioria dos casos, o que se houve em alto e bom som por aí é o tecnobrega. O que explica a antipatia de parte da população da cidade em relação a esse tipo de música, uma vez que se trata de um estilo musical diretamente associado à falta de educação e ordem pública. Para muita gente, tecnobrega é igual a barulho e desordem, ponto final.

O segundo erro está em colocar o tecnobrega de hoje em dia - e a sua vertente mais radical, o eletromelody - em oposição à “boa música” paraense, como se ele precisasse ser uma espécie de herdeiro do carimbó, da guitarrada ou do brega dos anos 80 (que, embora hoje seja defendido por muita gente, também sofria preconceito da classe média). Não, ele não é. Antes de ser um filho direto desses estilos, o tecnobrega é, na verdade, uma ruptura com a linha do tempo da música paraense.

Para sobreviver à hegemonia da axé music durante os anos 90, a música popular local precisou cavar uma trincheira e se reinventar através do brega pop de Roberto Villar, Banda Xeiro Verde e Wanderley Andrade. Em 2002 foi a vez da primeira geração do tecnobrega cavar mais fundo, quando bandas como Tecnoshow passaram a lotar as noites de sábado na casa de shows Apororoka.

Seis anos depois aparece o eletromelody, a novíssima encarnação do tecnobrega que cavou tão fundo a ponto de se meter em um buraco do qual já não consegue mais sair. O choque definitivo com a música popular paraense das duas gerações anteriores.

A razão do aparecimento dessa música dura, ácida, 100% eletrônica e quase sem melodia está diretamente ligada à situação sócio-econômica das baixadas de Belém. Ela existe porque existe uma nova geração de consumidores, periférica e digital, que encontrou na internet e na pirataria canais para administrar uma percepção de realidade fragmentada e não binária. Cybermanos da periferia globalizada que dominaram o Orkut e quase todas as redes sociais, que se educam em cultura pop através da pirataria e do download via internet banda larga, viciados em celulares de última geração, música eletrônica e nas sobras da indústria da moda que entopem as bancas dos camelôs da cidade.

São os garotos entre 15 e 20 e poucos anos que tomaram conta das aparelhagens e fizeram a geração anterior migrar para os bailes da saudade. Uma nova leva de consumidores que pedia uma música similar àquela tocada nas raves. Sai a dança e a melodia e entram as equipes, o “hey, hey”, o treme-treme e toda aquela coreografia peculiar inventada pelos meninos do novo tecnobrega.

É justamente por isso que o sonho classe média de que um dia o carimbó, ou coisa que o valha, venha a substituir o tecnobrega, jamais irá acontecer.

O carimbó não guarda nenhum ponto de identificação com quem, hoje, consome a música das aparelhagens. Ele não é, e nunca será, música pop. É uma música rural, primitiva, e que, com suas letras sobre pescadores e ondas do mar, não consegue dialogar com o menino de tênis Nike, celular com MP3 player, perfil no Orkut e a cabeça cheia de desenho japonês, moda Shiroi Neko e as cinco sequências de “Velozes e Furiosos”.

A questão que precisa ser respondida é: as mazelas sociais e a negação de nossas raízes culturais invalidam o tecnobrega como música a ponto de sermos contra ele se tornar patrimônio cultural do Estado?

Pessoalmente acredito que não. Da mesma forma que a barra pesada dos guetos novaiorquinos dos anos 70, com suas gangues e tráfico de drogas intenso, não invalidou o rap, hoje uma indústria bilionária, e o grafite, que ainda nos anos 80 atingiu o status de arte quando Keith Haring e Jean Michel Basquiat, um ex-morador de rua viciado em heroína, ganharam mostras nas galerias mais sofisticadas dos Estados Unidos. Do mesmo jeito que o tráfico de ecstasy na Inglaterra em 1988 não desmerece o Verão do Amor que deu origem ao acid house e às raves.

O que fazer então com o tecnobrega?

Em um mundo perfeito, o ideal seria fazer com ele o que a Bahia fez com o axé ou o que Fortaleza fez com o forró. Transformá-lo em indústria, investindo em estúdios decentes, bons produtores e eventos como o carnaval de Salvador, apoiados pelo poder público, capazes de trazer dinheiro e turistas às cidades onde acontecem.

Talvez uma ação mais pragmática, que soubesse separar a música tecnobrega da sua associação com os problemas urbanos de Belém, como o som alto e a ocupação desordenada do centro comercial, por exemplo. Até porque não adianta negá-lo ou desejar a sua substituição por outro tipo de música, já que, desde o fim da Ditadura Militar, a falta de uma política cultural consistente fez com que as festas de aparelhagem, sejam elas de tecnobrega ou de bailes da saudade, se tornassem a única forma de lazer viável para a população das classes C e D em Belém.

O tecnobrega está aí, e não vai sumir tão cedo. Aceitar isso é o primeiro passo para pacificar a relação dele com os seus detratores.



(por Vladimir Cunha, jornalista e diretor do documentário Brega S/A)

Comentários Recentes

  • PEDRO PAULO disse: Comentário postado em 03/05 Terça-feira às 21:45h "esse tipo de musica pode até ter seu espaço no meio paraense, mas dai querer transformar isso em patrimonio cultural do Pará é dose pra papudinho nenhum botar defeito. o Pará não merece isso como patrimonio. que esse tipo de " musica" fique somente na periferia com os desinformados e aculturados"
  • Luiz Leite disse: Comentário postado em 27/04 Quarta-feira às 11:31h "Concordo com tudo que escreveu o Dr. Guilherme Medeiros. Pena que a gente não pode fazer nada, a não ser lamentar."
  • Joaquim Seph disse: Comentário postado em 27/04 Quarta-feira às 02:49h "o músico e instrumentista Tom Zé ja dizia no final dos anos 80" socorro a censura acabou...pode-se fazer o que quiser" socorro a censura acabou!!! Hoje em dia a censura nao é mais do Estado e sim do mercado que estabelece o que deve ou nao ser ouvido.

    Já o filósofo Nietzsche dizia que a cultura de um povo é um sintoma de um "tipo de vida". Nossa cultura musical reflete bem nossos valores e condições de existencia."
  • Daniel disse: Comentário postado em 25/04 Segunda-feira às 22:15h "Paraense é mto caboco mesmo, axa q só o q vem de fora é q é bom.
    Ao invés de criticar, deviam valorizar e ajudar melhorar o q é nosso, falavam a mesma coisa do Rock, Hip Hop, e da Música eletrônica quando começaram, pq seria diferente com o 'Novo Brega'. Todos esses gêneros tbm eram criticados e hoje stão amadurecidos, consolidados e influenciando outros gêneros musicais."
  • Paraense disse: Comentário postado em 25/04 Segunda-feira às 21:42h "Banda bundas, chico-preto e companhia, tornaram o que era BREGA em merda. houve algumas resistências (melody), mas não surtiram efeito, pois continuaram copiando, sem originalidade (É muito fácil fazer sucesso quando o mundo todo já conhece a levada da guitarra, o arranjo, a melodia). O único ponto que a indústria brega se destaca é modalidade de divulgação, que hoje, é quase inevitável os artistas seguirem, assim como dos downloads, afinal, quem compra CD, hoje em dia? O Pará tem músicas boas, vozes bonitas... mas o que fazer se só são divulgadas festas de Aparelhagens, que movimentam milhões (em drogas e bebidas). Imagino que o autor não apanhe um ônibus lotado ao final de um dia de trabalho e seja obrigado a ouvir gritaria, chiado, besteiras, vozes fanhosas, auto-tunadas, vindas de um celular (dos mais modernos!) de um miserável que diz não ter opção de lazer. Ora, faça-me o favor sr. "jornalista"."
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