Segunda-feira, 06/06/2011, 04h48
Era para ser a cidade ideal, uma espécie de modelo perfeito do capitalismo moderno, o american way of life encravado em meio à floresta tropical. Mas o resultado foi o emblemático fracasso do projeto Fordlândia, erguido no Baixo Amazonas, que figura como um dos mais polêmicos projetos industriais já realizados na história recente do Brasil.
Uma invasão de pragas arruinou os planos do empresário americano Henry Ford que, nos anos 20 implantou na selva amazônica uma complexa estrutura industrial destinada à produção de látex para a fabricação de pneus utilizados pela gigante automobilística.
Em meio às ruínas desse sonho faraônico, fadado ao abandono de uma cidade fantasma, transitam os personagens do romance “Velas na Tapera”, do escritor paraense Carlos Correia Santos, que por seis anos pesquisou a história de Fordlândia para compor o enredo.
De volta ao berço da língua
O romance conta a tragédia de Rita Flor, que perde sua filha de seis anos. Após um misterioso incêndio em sua tapera, ela acredita que a menina virou uma milagreira e decide construir uma capela em sua homenagem. A jovem não tem dinheiro para cumprir seu intento. O único caminho que lhe resta é a prostituição. O sagrado e o profano deitam-se na mesma cama. Em meio ao vazio e ao desencanto que transformam Fordlândia numa vila fantasmagórica, Rita vende seu corpo para santificar a filha.
Na mesma medida regional e universal, “Velas na Tapera” foi contemplado em 2008 com o Prêmio Dalcídio Jurandir, promovido pela Fundação Tancredo Neves, e agora reverbera continente a fora. O livro será lançado hoje (6) em Portugal, durante um recital promovido pela FNAC Chiado. O evento contará com uma mostra de música brasileira e amazônica a cargo dos artistas Fercy Nery (na voz e violão) e Attila Argay (na bateria).
“Sinto que é uma honra em todos os sentidos poder lançar esse trabalho em Portugal. Primeiro porque consigo provar que, mesmo sem a cobertura de mercado de uma grande editora, é possível fazer circular a produção literária. O romance chegou aos leitores graças a um prêmio. Foi editado por uma fundação amazônica e, ainda assim, está trilhando um caminho sólido”, ressalta Correia, escritor e dramaturgo premiado, que já teve obras traduzidas para o francês e o espanhol.
“Essa possibilidade de intercâmbio também é sempre fascinante. Para quem cria narrativas em língua portuguesa é uma experiência emocionante levar seus ditos ao país berço do idioma com o qual labuta”, completa o romancista, que em breve também lançara seu trabalho em continente africano.
A obra tem prefácio escrito pelo romancista José Louzeiro, autor de clássicos da literatura brasileira, como “Pixote” e “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”, e orelha assinada por Olga Savary, uma das mais importantes poetas brasileiras, considerada a introdutora do hai-kai nas letras nacionais.
Em 2009, o romancista e dramaturgo venceu o concurso Literatura para Todos, promovido pelo Ministério da Educação do Brasil, com a peça infantil “Não Conte com o Número Um no Reino de Numesmópolis”. O trabalho está sendo editado numa coleção com tiragem de 300 mil exemplares que serão distribuídos em escolas brasileiras e africanas. (Diário do Pará)
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