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Quinta-feira, 30/06/2011, 02h21

80 anos de 'Batuque', do poeta Bruno de Menezes

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Foi em junho de 1931 que saiu a primeira edição do livro de poemas “Batuque”, do poeta e folclorista paraense Bruno de Menezes, um registro da presença do negro na cultura brasileira. De lá pra cá já saíram sete edições, o que para Maria de Belém, filha do escritor, é uma grande conquista.

A segunda edição contou com ilustrações de Garibaldi, já a quinta foi uma tiragem especial em comemoração aos 350 anos de Belém. As ilustrações desta edição estão no piso do palanque da Praça Bruno de Menezes, no bairro de Canudos. O escritor publicou um total de 13 obras, sendo as primeiras tiradas pela Tipografia Guará, na Cidade Velha.

Criado no festivo bairro do Jurunas, conhecido por suas tradições populares, Bruno de Menezes, ou Bento de Menezes, como foi batizado, só fez o curso primário, o que não o impediu de imprimir em seus livros todas as manifestações de sua vivência. Foi o ofício de encadernador que o levou a apaixonar-se pelo mundo dos livros.

Obra reflete a musicalidade negra

Maria de Belém tem em “Mãe Preta” e “Pai João” alguns de seus poemas preferidos do livro “Batuque”. Funcionária aposentada da Justiça do Trabalho, a filha de Bruno de Menezes esbanja lucidez do alto de seus 84 anos de vida, e não deixa de citar, com orgulho, seus irmãos e os atributos de seu pai. “Meu pai era um homem cordial, alegre e presente, sempre nos incentivava muito na leitura e nos estudos”, relembra.

Com ilustrações de Raimundo Vianna, “Batuque” já foi adaptado para espetáculos e homenageado diversas vezes, como nas peças “Bento Bruno”, de Carlos Correia Santos, apresentada no ano passado pelos alunos da Fundação Curro Velho, no Teatro Waldemar Henrique, e “Batuque”, apresentado pela Cia. de Dança Clara Pinto no Theatro da Paz.

Uma das maiores homenagens foi a XIV Feira Pan-Amazônica do Livro, realizada no Hangar Centro de Convenções no ano passado. Na ocasião, um dos filhos do escritor, o médico José Haroldo Menezes, recitou os poemas “Mãe Preta” e “Pai João”. Neste último, Bruno de Menezes faz um retrospecto da vida brasileira onde o negro esteve presente.

Outra homenagem foi uma edição lançada pelo Conselho Estadual de Cultura, além de uma série de noites comemorativas realizadas pela Universidade da Amazônia. Um dos versos de Menezes cantados pelo Coro da Unama e musicado pelo maestro Waldemar Henrique é “Chorinho”, que fala da presença flauta, do cavaquinho e do violão na noite enluarada.

“Sempre acompanhávamos papai nos recitais, ao lado de nossa mãe Francisca de Menezes, que era professora primária. Isso influenciou minha irmã Lenora, que é professora de piano”, conta Maria de Belém. Lenora Brito é mestre em Musicologia, e teve como tema de seu mestrado a presença do negro na música do Pará. Ela estudou várias personalidades ligadas a esse movimento, como Tó Teixeixa e Gentil Puget, e escreveu ainda pautas musicais de versos como “Mastro Divino”, “Folguedo de São João” e “Dança do Boi Bumbá”.

“A musicalidade dos poemas dele mostram o negro cantando a noite para disfarçar a dor de seu sentimento na senzala”, diz Maria de Belém.

João Bosco Castro chegou a musicar “O Cheiro da Mulata” e a “Escola dos Sapos”. “Numa excursão à França, brincava-se que o cheiro da mulata se comparava ao cheiro dos perfumes franceses”, divertem-se as filhas de Bruno.

“‘Batuque’ não fica só nas estantes de livros; é uma obra que tem um destaque popular e desceu para a alma do povo. São 80 anos de alma viva. Não é uma comemoração saudosa, é participativa”, emociona-se Maria de Belém.

Outra importante publicação de Bruno de Menezes é “Boi Bumbá”, que teve também músicas registradas por Mestre Drago. O livro está na 3ª edição e foi dedicado à mãe do escritor Maria Balbina.

Bruno de Menezes tem ainda uma filha freira, a jornalista Marília Menezes, que trabalhou um tempo em Manaus e retornou a Belém. Marília chegou a recitar o poema “Mãe Preta” em eventos no Theatro da Paz e festas comemorativas.

Outro irmão se interessou pela área da Teologia: Monsenhor Geraldo Menezes, o padre mais antigo de Belém, com 65 anos de atividade e 88 de idade. Há ainda um desembargador aposentado, Steleo Bruno de Menezes.

Além de escritor e folclorista, Bruno de Menezes também era um grande entusiasta das causas cooperativistas, dedicando-se ao cooperativismo escolar, com ações como hortas escolares. Em Mosqueiro foi criada a escola Professor Bruno de Menezes.

Alguns dos filhos de Bruno de Menezes moram há 50 anos na Rua João Diogo, casa onde o escritor chegou a morar. Em 2 de julho de 1963, Bruno faleceu de enfarte, quando participava como jurado de uma festa folclórica em Manaus, aos 70 anos de idade. No ano passado, houve a comemoração dos 90 anos do primeiro livro do autor, intitulado “Crucifixo”, e dos 50 anos de seu último livro: “Onze Sonetos”. (Diario do Pará)

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