Sábado, 08/10/2011, 02h55
“No segundo domingo de outubro, a bicentenária procissão do Círio de Nazaré é obrigada a conviver com a Festa da Chiquita, o mais tradicional encontro gay da Amazônia que, contra tudo e contra todos, tem lugar no mesmo dia, à mesma hora e na mesma rua”. Esta é a sinopse do filme “As Filhas da Chiquita”, que Priscilla Brasil lançou em 2008 e que conta a impressionante – e purpurinada - história de resistência do evento mais ousado e festivo da quinzena do Círio, que deve receber um público de 700 mil pessoas hoje.
Afinal, é ou não é ousadia demais começar um grande festejo pela diversidade sexual, com direito a concursos, desfiles, muita música e bebida, assim que Nossa Senhora de Nazaré passa? É no momento em que a procissão da Trasladação acaba, por volta das 22h, que as luzes se acendem no palco montado em frente ao Bar do Parque e a Festa da Chiquita inicia. E ela só termina cedo por que amanhã de manhã tem a procissão principal. Se não fosse isso, nunca terminaria, tamanha a empolgação do público, dos artistas e organizadores.
Um show contra a homofobia
“Respeitamos muito ela. A fé é para todos, na hora da festa estão todos na farra, mas no outro dia estão todos rezando. O que queremos com a Chiquita é que temas como a luta contra a homofobia sejam absorvidos pela sociedade. Seremos o primeiro estado a aprovar a lei que criminaliza essa prática”, explicou Eloi Iglesias, artista que é figura simbólica da cultura paraense e encabeça o evento, que em 2011 tem como tema “Além do Arco Íris – Um Show Contra a Homofobia”. O artista citou o projeto 25/2010, da deputada estadual Bernadete Ten Caten (PT), que já foi aprovado pela Assembleia Legislativa e aguarda agora a sanção do governador Simão Jatene.
Durante um ensaio para a apresentação da festa, ele contou que a fantasia que irá usar hoje a noite representa um fauno sagrado e foi confeccionada com mais de 2 mil pedras de cristais Swarovski. Para Eloi, essa 33ª edição representa uma retomada ao velho modo de produzir a festa.
“A Chiquita é uma releitura que fazemos da festividade do Círio, com uma vocação LGBT. É uma manifestação em si, que cresceu o que tinha que crescer e este ano será uma ‘colcha de retalhos’, unindo o que de melhor aconteceu, mas aparando algumas coisas para dar um formato mais dinâmico”, contou ele, acrescentando que área vip, que ficava atrás do palco, voltará a festa, para dar mais conforto aos convidados e homenageados, como o ex-BBB e deputado Jean Willys (PSOL).
VEADO DE OURO
Eloi explicou que o convite feito a Jean Willys teve que ser ampliado, devido a satisfação que o deputado sinalizou por ser homenageado pela Festa. “Ele assistiu ao filme, se mostrou entusiasmado e ao invés de receber a menção resolvemos convidá-lo para receber o prêmio ‘Veado de Ouro’, que é dado para quem teve maior destaque no ano. E Jean é extremamente atuante, lutando não apenas pelas questões LGBT, como sendo também uma figura que tem conhecimento sobre assuntos diversos e está empolgado para conhecer a festa e a cidade”, detalhou o organizador da Chiquita.
Eloi frisa que apesar de não querer ser panfletária, a Chiquita faz questão de homenagear pessoas por acreditar que é importante reconhecer as boas práticas, seja de apoio a diversidade sexual e as causas sociais.
Perguntado sobre por que a predominância de políticos entre os homenageados, entre eles o governador Simão Jatene, Eloi disse que a cantora Fafá de Belém também recebe o prêmio “Walter Bandeira”, e que levará os convidados do Camarote ‘Bom Dia Belém’ para conhecer a Chiquita, além de se apresentar no palco da festa.
“A Chiquita é patrimônio imaterial tombado pelo Iphan desde 2004, e é prestigiada por veículos como a G Magazine e o Festival Mix Brasil. As companhias de turismo de São Paulo viram que iriam lucrar com isso e começaram a oferecer pacotes para a festa, e o governo estava perdendo isso”, afirmou Eloi.
“O que mais nos preocupava era a segurança então nesta edição investimos em 100 seguranças particulares”, enfatizou Eloi. De acordo com ele, o governo e a prefeitura apoiaram o evento também destacando 300 policiais da PM e da Guarda Municipal para garantir a segurança do evento.
E essa “farra da sodomia religiosa”, como o próprio Eloi apelidou, apesar de não ser reconhecida pela Diretoria da Festividade do Círio como evento integrante da programação oficial, é prestigiada por todos. “Esse ‘lado profano’ do Círio é o que todo mundo quer descobrir quando vem a Belém nessa época, e o povo paraense reconhece o evento e convive bem. Quem se incomoda é quem dita conceitos e preconceitos. A Chiquita é uma aposta colorida na diferença entre cores e pessoas, e serve para mostrar ao público que os indivíduos LGBT não querem apenas cidadania e respeito, querem também o poder e a igualdade”, resumiu Eloi Iglesias.
33ª Festa da Chiquita. Hoje, após a Trasladação do Círio de Nazaré, por volta das 22h, em frente ao Teatro da Paz, ao lado do Bar do Parque, na Praça da República (Av. Presidente Vargas). (Diário do Pará)
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