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Quarta-feira, 04/01/2012, 07h22

Licitação irregular: empresa paga show de Ivete

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Acusada de irregular, viciada e feita sob medida para beneficiar a construtora paulista Andrade Gutierrez, a concorrência pública internacional 034/2011 da Prefeitura de Belém, para implantação em um corredor de tráfego de 20 km, entre o distrito de Icoaraci e Belém, do projeto de Ônibus de Trânsito Rápido (BRT), com o custo de R$ 430 milhões, continua à espera de providências. Ontem, o DIÁRIO tentou falar com o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado (MPE) para levantar o que os fiscais da lei estão fazendo para apurar o escândalo.

No dia 27 passado, terça-feira, o DIÁRIO publicou uma mensagem cifrada no caderno de classificados “Tem!”, à página 14, denunciando quem seria a escolhida no edital da prefeitura. O texto do anúncio, sob o título “Por uma Graça Alcançada”, dizia: “A fé alavanca as grandes obras do Senhor. DC ouviu tuas preces. AG, és a vencedora. Juntos, agora, multiplicaremos o pão nosso de cada dia. Feliz 02/01/2012. PB”.

Nenhum procurador da República ou promotor de Justiça atendeu aos telefonemas, apesar de nas ruas e nas redes sociais a manchete do DIÁRIO, mostrando que o edital tinha cartas marcadas, ter obtido ampla repoercussão provocando uma onda de indignação nas pessoas.

Os Tribunais de Contas do Estado e dos Municípios (TCE e TCM, respectivamente) também se mantiveram alheios à denúncia. Ainda não se sabe se houve alguma provocação aos fiscais da lei no sentido de apurar o escândalo.

No MPF, o procurador-chefe, Ubiratan Cazetta, determinou a abertura de investigação, o mesmo acontecendo no MPE, mas não foi informado quem está atuando no caso.

À Prefeitura de Belém, contudo, ainda não chegou nenhum ofício ou pedido de explicações, segundo informaram assessores do prefeito Duciomar Costa.

CONTAGIANTE

O governo do Estado, que tem um projeto semelhante de Ônibus de Trânsito Rápido amplamente discutido e bem maior do que o da prefeitura, se mantém em silêncio, evitando entrar na discussão sobre os impactos do projeto BRT.

Construtora trará Ivete Sangalo

Quem se manifestou, curiosamente, foi a construtora Andrade Gutierrez, principal personagem do escândalo que envolve o projeto orçado em R$ 430 milhões. A empresa foi econômica nas respostas, mas admitiu o “presente” para Belém, bancando o show de Ivete Sangalo no próximo dia 12. Por e-mail, a construtora respondeu a quatro perguntas formuladas pelo DIÁRIO.

À indagação “O que a empresa tem a dizer sobre denúncias de que seria beneficiada por edital direcionado?”, a Andrade Gutierrez respondeu: “Várias empresas nacionais e internacionais estão em condições de atender às exigências do edital”. Teria sido interessante que a empresa também explicasse por que então essas empresas desistiram de concorrer depois de saberem que a Andrade Gutierrez seria a vencedora.

Outra pergunta: “Qual a relação da empresa com a prefeitura de Belém? Ela tem outras obras na cidade? Quais?”. Sabe-se que ganhou uma concorrência para o Portal da Amazônia, mas a Justiça Federal anulou, em julho de 2011. A Andrade Gutierrez respondeu que mantém relação “estritamente profissional” com a PMB. Segundo a empresa, atualmente estão em vigência dois contratos “absolutamente regulares” com o governo municipal. Um é a obra na orla da cidade e o outro, a macrodrenagem na sub-bacia 1 da Estrada Nova, também conhecida por portal da Amazônia. Detalhe: a obra começou em 2006 e era para estar concluída há dois anos, mas se arrasta com paralisações e retomada do serviço.

Perguntada se caso permanecesse sozinha na concorrência não temia ter a imagem associada a irregularidades envolvendo a prefeitura de Belém, a resposta foi de que o grupo Andrade Gutierrez “possui mais de 60 anos de história e sempre executou obras públicas respeitando as normas estabelecidas pelos editais, contratos e pela legislação”.

Na quarta indagação, sobre se seria verdadeiro que a empresa bancará um show da cantora Ivete Sangalo no próximo dia 12, data do aniversário de Belém, para demonstrar suas boas relações com Duciomar Costa, a resposta, mais uma vez, foi curta e grossa: “A Andrade Gutierrez e outras empresas contribuirão para as festas do aniversário de Belém. A empresa entende que participar das festividades de aniversário das localidades em que atua faz parte de uma iniciativa que visa contribuir para o bem-estar e a qualidade de vida das comunidades”, admitindo envolvimento na festança. O cachê da cantora baiana gira em torno de R$ 1,5 milhão.

Vereador apela por anulação

O vereador Carlos Augusto Barbosa (DEM), o primeiro a denunciar a estranha licitação, informou que dará entrada de representação no Tribunal de Contas dos Municípios e do Estado, pedindo a nulidade do edital em que a Andrade Gutierrez reina sozinha. “Se faz necessário que os órgãos competentes cumpram com os seus papéis de fiscalizadores, assim como faço a minha parte como vereador e acredito que diante de tais proposições irão anular tal edital. É claro os vários indícios de irregularidades e que ferem os princípios da administração pública”, acrescentou

Durante a votação do pedido de empréstimo na Câmara de Belém, Barbosa denunciou que havia direcionamento do edital para favorecer a empresa. Ele disse que hoje pela manhã estará encaminhando as denúncias através da secretária de seu gabinete. Acredita que com a ampla divulgação do fato e anulação do edital, Belém poderá ser contemplada com uma obra no trânsito que beneficiará não só os moradores da capital, mas de toda a região metropolitana.

Barbosa defende o projeto do governo do Estado que está sendo estudado junto à Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA) há mais de 20 anos e cujo recurso estava garantido. “Não sou contra a realização de obras da prefeitura, mas a favor da transparência da aplicação do dinheiro público”, resumiu.

O advogado e conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA), Ismael Moraes, por designação do presidente da entidade, Roberto Busato, acompanhará o caso. Segundo ele, a OAB “enviará ofício à prefeitura de Belém e à Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) a fim de saber se foram feitos estudos e relatórios conhecidos por EIA/Rima e o devido licenciamento ambiental do projeto”.

Caso contrário, a aparente pressa em ser feita a contratação por meio de uma licitação sem concorrência pode ser indício, afirma Ismael Moraes, de se estar criando justificativa “para gastos com consequente canalização para corrupção eleitoral, uma vez que é indiciário isso estar ocorrendo justamente em ano eleitoral”. Após obter essas informações, o Conselho Estadual da OAB estudará que medidas poderá tomar.  (Diário do Pará)

Comentários Recentes

  • Cronista disse: Comentário postado em 06/01 Sexta-feira às 15:11h "A chamada Justiça "JUSTA" só funciona para os "POBRES",em briga de rico brincam de cobra cega."
  • Rodrigues disse: Comentário postado em 04/01 Quarta-feira às 23:00h "So da idignacao em ver o que acontece nos meios politicos com tanta robalheira ; e nos cidadaos trabalhadores nao nos manifestamos p/ mostrar p esses politicos que nao aceitamos tal safadesa .Tem os que ir as ruas fazer nosos protestos cobrando honestidade destes salafrarios."
  • Cristina disse: Comentário postado em 04/01 Quarta-feira às 16:02h "Depois de colecionar mais de vinte procesos por desvio de verba e/ou improbidade adminstrativa, essa licitação fraudada é para fechar o seu mandato com chave de ouro, e engordar o seu caixa dois. Afinal, processo para o DUDU é troféu!!"
  • Aldo disse: Comentário postado em 04/01 Quarta-feira às 15:57h "Isso com certeza vai servir só para o desprefeito Duciomala fazer caixa dois, e deixar mais uma obra não concluída na ciadade. Cadê os MPE e MPF que não fazem nada??"
  • Raimundo disse: Comentário postado em 04/01 Quarta-feira às 15:54h "Será possível que não tem nada sério nesse desgoverno municipal? Quando o desprefeito não tá envolvido em escândalo de superfaturamento de obra (Vila da Barca) ou desvio de recurso público(como os 34 milhões do Ministério das cidades), ele tá envolvido em fraude em licitação. E assim ele vai tocando o seu mandato, colecionando processos na justiça, se esquivando da cassação e vivendo impunimente, sem que nada lhe aconteça. Oh prefeitozinho largurento!!"
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