Domingo, 22/01/2012, 07h03
Arquiteto, professor da Universidade Federal do Pará e coordenador executivo do Fórum Landi - organização formada por acadêmicos interessados na história da Amazônia no século XVIII e na conservação do legado arquitetônico e artístico de Antônio José Landi -, há anos Flávio Sidrim Nassar levanta a bandeira de colocar a capital paraense no rumo do turismo de patrimônio. A ideia ganhou força em abril do ano passado, quando Belém sediou a II Reunião Internacional do Fórum Landi, que lançou a campanha “Belém de Landi – Patrimônio Mundial”. Admirador do patrimônio histórico paraense, Nassar é duro nas críticas contra as políticas culturais e diz que, mais que restaurar, é preciso revitalizar os prédios que contam a história de Belém. Nessa entrevista cedida ao DIÁRIO, o arquiteto fala sobre os desdobramentos da campanha que destaca as obras arquitetônicas de Antônio Landi (como o Palácio dos Governadores, as Igrejas de Santana, São João, do Carmo e as fachadas da Catedral de Belém e do convento das Mercês), apostando que, após tentativas frustradas, com um novo projeto agora seja possível fazer de Belém uma cidade conhecida não só pelas mangueiras e a chuva da tarde, mas também pelo rico patrimônio histórico arquitetônico. Confira:
P: Quais foram, afinal, os desdobramentos do encontro que no ano passado discutiu, em congresso internacional em Belém, o patrimônio histórico no Pará?
R: Foi a segunda reunião internacional do Fórum Landi que tratou de discutir os trabalhos que estão sendo feitos, especialmente, em relação às obras do Landi e aos estudos que têm sido feitos em torno dessa temática. A partir dessa reunião, desenvolvemos uma campanha que pretende tornar as obras de Landi Patrimônio Mundial da Humanidade.
P: Dentro desse processo, discutiu-se também a inserção de Belém na exploração do turismo de patrimônio. De lá pra cá, houve avanços nesse sentido?
R: Avanço houve, mas não como nós gostaríamos. É um avanço insuficiente ainda, sobretudo porque ainda não foi possível colocar em funcionamento um elemento dos mais importantes para o processo: a Biblioteca Digital Landi. Ela é um mecanismo fundamental que, por não estar no ar, impede o avanço da campanha.
P: Mas afinal, o que falta para a implementação dessa ferramenta?
R: A biblioteca digital é de responsabilidade da Universidade Federal do Pará. Nós estamos trabalhando, mas uma série de problemas operacionais dificultam o avanço. As coisas na universidade nem sempre andam como a gente deseja, há uma série de procedimentos que precisam ser cumpridos e que demandam tempo. Globalmente, a metodologia de implantação do projeto é cooperativa. Nós teríamos de ter, portanto, um banco de dados comum que seria exatamente a biblioteca.
P: Sabendo que esse é um processo lento, mas considerando que ele não é novo e que já vem caminhando há algum tempo, é possível prever para quando o funcionamento dessa biblioteca?
R: Nós já escaneamos imagens, compilamos dados, recolhemos informações para que a biblioteca entre no ar com um bom, e expressivo, acervo oferecido gratuitamente pela internet. Ela ficará hospedada no servidor da UFPA. Para ter acesso, bastará ir à home page da instituição. Espero que em dois, ou três meses, a gente consiga colocá-la para funcionar.
P: A partir da conquista do banco de dados. Qual o próximo passo em relação a Belém e seu patrimônio histórico?
R: Quando esse banco de dados começar a funcionar, nós retomamos a campanha para transformar a obra de Landi em Patrimônio Mundial da Humanidade. Algumas mobilizações já caminham nesse sentido, como a newsletter do Fórum Landi, o uso das mídias sociais como o Facebook e o Twitter, além do blog do Fórum Landi, que agora lançou a campanha de compra da Capela Pombo [a ideia é arrecadar R$ 1 nilhão para arrematar o prédio histórico, que está com placa de venda. A restauração e manutenção seria de responsabilidade da UFPA].
P: A ideia então é fazer um recorte na arquitetura histórica de Belém, apresentando especificamente a obra de Landi como patrimônio. Por quê?
R: Já houve outras tentativas de categorizar o patrimônio de Belém. A primeira, seria transformar o centro histórico em patrimônio cultural da humanidade, a segunda, aproveitar a diversidade e transforma-la em paisagem histórica. Nenhuma apresentou sucesso. A razão principal do fracasso diz respeito ao fato de o centro histórico encontrar-se bastante modificado. A arquitetura histórica está descaracterizada. A unidade é um dos elementos fundamentais cobrados pela Unesco para conceder à cidade o título. Mesmo se houvesse um projeto de restauração e revitalização do centro histórico, não seria um processo fácil. Daí a nossa alternativa. Uma estratégia que permite um recorte dentro da cidade e só é possível porque houve uma reformulação recente na legislação, permitindo que pontos isolados possam ser transformados em patrimônio. Vimos nessa alteração a possibilidade de alavancar Belém nesse processo de patrimônios da humanidade.
P: Já chegaram a comparar nosso centro histórico com os de Salvador e São Luís, ambos considerados Patrimônio Cultural da Humanidade. Por que mesmo tão rica na arquitetura, Belém não consegue se igualar a essas duas cidades?
R: Belém tem uma característica interessante. No centro histórico são retratados diversos momentos históricos. Há testemunhos arquitetônicos do século XVIII, XIX e XX. É diferente de outros centros históricos onde as obras pertencem a um mesmo período. Essa marca é muito positiva, no entanto, não podemos comemorar, porque não há conservação. Vemos todo esse patrimônio ser gradativamente destruído. Temos um patrimônio importante, mas não há um projeto de gestão que o valorize. Fosse essa realidade diferente, teríamos um patrimônio rico, diverso e poderíamos, então, pensar em outras categorias de reconhecimento.
P: Em Belém nós temos vários espaços tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico, mas que não recebem do poder público a devida atenção e acabam sucumbindo ao tempo. Na prática, o que muda com a conquista do título de patrimônio mundial?
R: Antes de tudo é necessário que haja interesse do país membro. Manifestado esse desejo, é a vez das esferas públicas locais apresentarem comprometimento junto à organização [a Unesco] no sentido de formular um plano de sustentabilidade voltado para a manutenção do patrimônio e, a partir daí, de cinco em cinco anos, há uma avaliação da Unesco. Aliado a esses dois fatores, há um terceiro ligado diretamente à identificação daquele bem com a comunidade.
P: Que relação você percebe entre os belenenses e o patrimônio arquitetônico? As pessoas conhecem Landi?
R: Do que era há dez anos, quando começamos as primeiras discussões para o que alcançamos hoje, percebo uma grande mudança no sentido de aproximação. Há programas culturais estreitando esses laços, como o Cultura Pará, no Largo do Carmo, circuitos de exposições. A gente prevê no projeto o ‘Landi na minha vida’. Será um espaço exatamente para essa identificação. Casamento, batizado, passeio, enfim qualquer ligação sua com a obra dele. A tendência é de encurtamento de distância e valorização.
P: Recentemente houve uma discussão em relação à revitalização do Palacete Pinho. Qual a principal crítica?
R: Quando se pensa na revitalização de um espaço é necessário que, no mínimo, se pense uma alternativa de utilização do espaço, para que ele seja reincorporado à vida sociocultural da comunidade. Se você vai fazer o restauro de um prédio, é preciso que, aliado a isso, pense-se em um plano de reutilização. O Palacete Pinho estava morto, o prédio estava em ruínas. Houve o restauro, mas não houve a revitalização. Ele continuou sem vida, porque permaneceu sem uso. Quando houve o incentivo para a reforma, havia um projeto que previa dar vida ao lugar através da música. Que fosse. O importante seria a utilização permanente do espaço e não o abandono que permaneceu. Uma exposição de móveis vindas do palacete da prefeitura não justifica o custo-benefício de um projeto que previa utilização permanente. Não há a menor prioridade nas políticas de cultura no município.
P: Que outros locais mereciam atenção especial do poder público?
R: O grande problema de Belém é o conjunto. É a ausência total de uma política que coíba o avanço da degradação. Por não existir um plano, uma diretriz, a gente vê tudo se degradar. O problema não é restaurar um prédio. Se você reparar, isso se tem feito. A grande questão é uma política que vise reconquistar uma parte do tecido urbano. A gente vê alguns exemplos partindo da sociedade, o Fórum Landi, no Largo do Carmo, a Fotoativa, no Largo das Mercês. Mas em geral, é um grupo de ‘quixotes’, sem muitos recursos.
(Diário do Pará)
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