Sexta-feira, 03/02/2012, 03h46
Na casa de dona Januária, uma chuva mais forte faz a água bater na altura dos joelhos. Na de dona Maria Vanda, os ratos já nem se intimidam e aparecem a qualquer hora do dia. E na rua de Marcos André, o problema é o lixo que se acumula mesmo com coleta em dia. Os três moram em locais diferentes e estão sujeitos a problemas distintos, mas dividem uma mesma preocupação: a leptospirose, doença infecciosa transmitida pelo contato com a urina do rato, que se manifesta com mais intensidade nesta época do ano, com o aumento das chuvas.
“Aqui acolá aparecem uns ratos bem grandes. Eles só não se criam na minha casa, porque eu já coloquei uma gata para comer”, conta a aposentada Januária Silva, que mora com toda a família em uma vila no bairro da Terra Firme. Embora nunca tenha apresentado os sintomas da doença, dona Januária faz parte de um grupo vulnerável, já que a casa sofre com constantes alagamentos. “Para não ficar em contato com a sujeira, a gente sobe e só desce quando já está seco”, explica.
Dona Vanda já não sofre mais com alagamentos em casa, mas a água que continua passando por debaixo da casa dela no Guamá é um atrativo para a proliferação de roedores e outras pragas. “Faço de tudo e não consigo me livrar. Aparece muito rato aqui e agora eles deram para trazer esses caramujos para dentro de casa. A gente coloca veneno, diminui um pouco, mas não acaba. Tem uns [ratos] que já são criados, chega ficam gordinhos”, conta a senhora que, com três cachorros em casa, mantém atenção redobrada. “Não pode deixar a comida de bobeira. Se sobrar, tem que logo recolher. Senão os ratos atacam”, explica a moradora, que tem medo de contrair leptospirose.
ESCALADA
Após dois anos registrando queda nos registros de casos confirmados, no ano passado os números voltaram a subir no Estado. Foram 131 confirmações, contra 85 em 2010 e 101, em 2009. As estatísticas preocupam porque a taxa de letalidade ainda é muito alta - em média, mais de 10% dos pacientes que contraem o mal vão a óbito. Em 2011, onze pessoas não resistiram à doença.
“A leptospirose é uma doença negligenciada porque os primeiros sintomas são febre, dor de cabeça e dor no corpo. Em geral, quando o paciente procura atendimento, a doença já evoluiu e atingiu os rins, por isso a taxa de letalidade é tão alta”, afirma Reynaldo Lima, coordenador de Zoonoses da Secretaria Estadual de Saúde.
Segundo Lima, os profissionais da rede pública de saúde têm recebido treinamento frequente para diagnóstico precoce. A orientação é que pessoas que tenham ficado expostas à água de enchentes e apresentem os sintomas da infecção devem procurar atendimento nas unidades de saúde. Caso a doença seja confirmada, o paciente é encaminhado para atendimento especializado no Hospital Barros Barreto, referência para esse tipo de tratamento.
EM BELÉM
O Centro de Controle de Zoonoses informou que desde o início do ano desenvolve ações educativas e preventivas nas feiras e mercados de Belém. Segundo a diretora Regina Perezino, a ação é voltada aos consumidores e comerciantes e os profissionais orientam sobre os principais cuidados para evitar a proliferação dos roedores e os riscos de contaminação da leptospirose. “Também atendemos denúncias sobre a presença de roedores nas vias públicas e fazemos o controle de foco nos locais onde há registro de contaminação”, explica.
Para o técnico em informática Marcos André Farias, que já viu vizinhos adoentados, também é preciso que a população se conscientize e faça a sua parte. “Aqui falta educação para as pessoas. O caminhão de lixo acaba de passar e as pessoas jogam as sacolas com lixo aqui. O resultado é gente doente, claro”, desabafa. (Diário do Pará)
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