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Domingo, 05/02/2012, 13h25

Veteranos do carnaval paraense relembram histórias

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A memória não ajuda a precisar. Mas dona Milta Pantoja Nonato sabe que faz tempo. Ainda garota foi parar na escola de samba “Rancho não Posso me Amofiná”. Um dos diretores na época a trouxe. “Só entrava se um deles convidasse”, lembra. E dona Milta entrou, saiu na avenida para defender o Rancho e nunca mais deixou a agremiação, nem o bairro onde nasceu e morou a vida inteira, o Jurunas. Quando casou, até ensaiou um afastamento. Dizia para o marido que ia apenas assistir ao desfile. Deixava a fantasia escondida na casa da vizinha. Era todo um malabarismo para acompanhar a escola querida. “Quando a gente gosta, vale a pena”, diz.

Na década de 70, dona Milta ficou viúva. E no Rancho criou raízes de vez. Terminou de criar os filhos, trabalhou no comércio e em órgão público. Foi costureira, tirava xerox e do Rancho jamais partiu. De dia casa e emprego. À noite, um só destino. “Eu vinha pra cá”, recorda. Em 1994, começou a trabalhar na própria sede da escola, preparando a merenda dos alunos do curso de música. Depois atuou em funções mil. “Já fiz de tudo aqui, já lavei essa sede, banheiro. Eu não gosto de ficar em casa. Me acordo cedo, gosto de vir pra cá. Não é melhor do que ficar em casa?”, questiona.

Hoje, a “rancheira” de 69 anos é responsável pela tarefa das compras. Materiais para as roupas, fantasias, adereços, o que precisar, além de cuidar da harmonia da escola na avenida, no meio da bateria. Ela também abre o barracão para as atividades diárias que ocorrem no espaço antes, durante e depois do Carnaval. Chega às sete, oito horas da manhã. O horário é ditado pelo período carnavalesco. Mais cedo para a proximidade do evento. Mais tarde com a distância dele. Voltar para casa segue o mesmo ritmo.

Quando se aposentou, já com o seis filhos todos devidamente encaminhados, a dedicação aumentou. “Eu achei melhor vir pra cá, sempre fui acostumada a trabalhar”, comenta. Dos filhos, só um herdou o carinho pelo “Rancho não Posso me Amofiná”. “Só um liga. Bonito isso pra minha cara né?”, brinca. E o neto, Leonardo, de 12 anos, dá indícios de continuar a linhagem de “rancheiros”.

Seu Hélio Magalhães de Freitas é outro só amores pela agremiação jurunense. Herança de família. O pai tinha verdadeira devoção pelo grupo cultural. Seu Hélio até hoje não compreende muito bem os motivos. Ele não nasceu e nunca morou no Jurunas. “Nossa origem é toda do Umarizal. Nasci e me criei no Umarizal. Mas minha paixão é desde criança. Desde 1983 estou no Rancho”, conta o engenheiro mecânico aposentado, de 68 anos. Nela, dirigiu ala e desempenhou uma porção de outras atividades. Agora, tem a missão de coordenador de harmonia.

No Carnaval, no entanto, o engenheiro mecânico iniciou em 1974, no bloco Filhos da Maçã. “Saía lá da Ferreira Pena, entre a 14 de março com a Curuçá”. Seu Hélio Magalhães de Freitas ainda fez parte da Mocidade Unidos do Umarizal, escola que a família dirigiu por anos.

E teve a Mocidade Botafoguense também. “Fui diretor de harmonia”, acrescenta. Aí veio o Rancho. “A minha escola preferida, que eu amo, adoro”. Só existe ela para seu Hélio. E a vitória está garantida em 2012? “Cabeça de jurado é cabeça que ninguém anda. Dentro do Carnaval paraense não existe rigor no julgamento, porque as escolas vão com os carros mal acabados e os jurados dão 10, 9. As pessoas não levam o Carnaval aqui a sério”, lamenta com experiência de quem vivenciou tempos melhores. “[Antes] era muito melhor, mais bonito, muito mais animado. Era o terceiro Carnaval do Brasil. [Hoje] a gente tem um sambódromo que de determinados pontos não dá pra ver nada, foi mal construído, onde a dispersão é um gargalo pra qualquer escola. Fica difícil você fazer Carnaval desse jeito. É por isso que a população tá se afastando”, acredita.

Ele exibe a camisa de 2008, homenageando o município de Igarapé-Miri. “Um dos carnavais mais bonitos que o Rancho fez”, comenta. E completa: “A gente vem pra ganhar esse ano. O Rancho vem muito bonito. O Rancho só perde pra ele mesmo, se tiver desarmonia”, aponta.

TEMPO E MEMÓRIA

A idade de ouro do Carnaval daqui para seu Hélio vai do final da década de 60 até o início dos anos 80. “O Carnaval paraense precisa de uma modificação, porque ele não morreu, ele caiu. Mas pode morrer”, avisa.

É preciso realmente gostar, na opinião da costureira Nazaré Azevedo da Silva, de 71 anos. “Eu já participei muito em barracão. É um corre-corre. Ir pra avenida, ficar esperando, pegando chuva... Tinha batalha de confete, antigamente dava meio dia e já se via bloco de sujo [blocos de gente sem fantasia ou fantasiada do jeito que queria] passar. Tinha Carnaval em tudo quanto era lugar. Hoje se você não for pra Aldeia, você não vê nada”, diz dona Nazaré, entre a costura das roupas de uma das alas da Bole-Bole, do bairro do Guamá.

Há dois anos, a costureira desfila como baiana pela escola. Tem sido assim desde que a Associação Carnavalesca Academia de Samba Jurunense deixou de disputar o título no sambódromo. Dona Nazaré participou por quase dez anos da Academia. É desde a época da antiga escola que parte das roupas dos sambistas sai de suas mãos e das filhas Soraia, 38; e Alexandra, 30. O encanto pelo Carnaval a acompanha desde pequena. “Mas eu já vim brincar depois de uma boa idade. Eu ia muito assistir. A minha família não deixava [participar das escolas]. Sabe como era antigamente, né?”.

Sob a influência da filha Soraia é que dona Nazaré entregou-se por completo ao samba e pôde acompanhar mais de perto o cotidiano de quem precisa levantar e sacudir a poeira do descaso e do abandono. “Passei 22 anos em escola de samba. Entrei com 16 anos na Academia de Samba Jurunense para fazer parte da comissão de frente. Fui da diretoria. É muito complicado. A cultura não é valorizada aqui. As escolas só saem porque as pessoas realmente se esforçam. A Prefeitura pagou R$ 1,5 milhão para a Ivete Sangalo cantar aqui. Não dava pra dividir esse dinheiro pra todas escolas?”, questiona, num misto de lamento e revolta. Dona Nazaré deve desfilar este ano por três escolas. Todas do grupo especial. E nem pensa em parar. “Deus me livre, quando chega o dia, eu fico ansiosa, inquieta. É divertido, me dá alegria, é festa do povo e para quem sabe brincar”.

Se a rotina carnavalesca parece agitada para dona Nazaré, imagine para 1ª Princesa do Carnaval do Baile da Terceira Idade do Império Pedreirense, dona Gertrude Pereira Viana, de 68 anos. No próximo dia 11, ela vai concorrer ao título de Rainha do Baile, com a fantasia de “Boneca de Pano”, na quinta edição do evento. Será uma preparação para o que virá na Aldeia Cabana.

Três escolas podem contar com a presença dela na ala das baianas: Império Pedreirense, Rosas de Ouro, Rubro Negro, fora os convites em análise e a participação certeira no bloco Mocidade Alegrense, nascido e criado na passagem Alegre, onde mora. Os preparativos para botar o bloco na rua, aliás, estão a todo vapor na sala da casa de dona Gertrude, que cede o espaço como um barracão improvisado. “Dou minha casa com gosto”. Em 2009, o bloco agradeceu a acolhida ao contar a história de dona Gertrude em forma de homenagem. História dedicada ao Carnaval. Décadas de existência guiadas pelo ritmo dos tamborins. A explicação talvez seja culpa de ter nascido na Pedreira, a terra do samba e do amor. Dona Gertrude tinha 14 anos quando participou pela primeira vez como baiana no desfile da extinta Imperatriz do Subúrbio. Não desgrudou mais do Carnaval e até se acostumou à correria de representar várias escolas no mesmo dia. “Desfilava pra quatro, cinco escolas”, lembra.

As fantasias são lembranças desses momentos de felicidade e alegria. Dona Gertrude as guarda até hoje. Todas elas. De todos os anos. “Ela tá aumentando o quarto dela só para guardar as outras”, entrega a filha Mary. Dona Gertrude acha graça, quase explode em gargalhada. Ela queria mesmo era poder vibrar pela Imperatriz do Subúrbio, que parou os trabalhos há pelo menos 30 anos. Mas está torcendo pela vitória da Império. “Agora tô com ela até o fim da minha vida”. (Diário do Pará)

Comentários Recentes

  • Rubem Machado disse: Comentário postado em 05/02 Domingo às 19:35h "Sou Paraense estou longe de Belem a algum tempo mas lembro do carnaval da minha juventude os blocos Ta Feio depois Boemio da Campina Piratas da Batucada Escola de Samba da Matinha mascarados como Prof. Gurijuba e Dr. Passa o Pau o Cuia era o Rei Momo Pedreira Bar batalhas de confeti Festas no Palace ,Delta, Liberto e a Condor o final da noite.Quem viveu lembra !!!!!!"
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