Segunda-feira, 06/02/2012, 09h39
Escritor da obra-prima “Os Sertões”, o carioca Euclides da Cunha é um imortal da literatura brasileira. Mas para o pesquisador Felipe Pereira Rissato, a história real do autor poderia render uma trama de romance. Órfão de mãe aos três anos de idade, Euclides foi confiado, assim como sua irmã, aos cuidados de uma tia, que morreu apenas dois anos mais tarde. Começava uma vida nômade.
A infância e adolescência de Euclides seria transitar por casas de parentes, entre tios e avós. Homem de ideias firmes, Cunha foi expulso do Exército quando desacatou o ministro da Guerra do Império em um ato isolado de rebeldia republicana no momento em que devia reverenciá-lo. Contudo, dias após a Proclamação da República já estava ele reintegrado ao Exército e promovido. No posto da armada, atuou na emblemática Guerra de Canudos e a fez inspiração para escrever sua maior obra, lançada em 1902. Viajou da Bahia à Amazônia.
Casou-se e a vida nômade não cessou. Depois de muito esforço, conseguiu um posto fixo como professor de Lógica no Ginásio Nacional, no Rio de Janeiro. Mas não houve tempo para fincar raízes: morreu poucas semanas mais tarde, ao envolver-se em tiroteio com o amante de sua esposa. Desfecho trágico e precoce da vida do autor, aos 43 anos.
Foi essa novela particular de Euclides que arrebatou Rissato há mais de duas décadas. Ainda garoto, aos 11 anos, Felipe assistiu a uma minissérie que apresentava Euclides da Cunha como um dos personagens. Para o pesquisador, esse sempre foi o principal viés do escritor carioca: o de figura dramática. “Desde então, interessei-me de imediato e fui buscar saber mais sobre a sua biografia. Anos mais tarde, comecei a adquirir livros dele e sobre ele, além de pesquisar em bibliotecas tudo o que havia sido publicado em jornais e revistas, tirando cópias do que encontrasse. Não parei mais”, relembra.
Anos mais tarde, o resultado da minuciosa pesquisa sai em livro. “Iconografia de Euclides da Cunha” acaba de ser lançado e traz uma preciosa e inédita compilação de imagens da vida do escritor carioca: o acervo fotográfico conhecido até então do escritor em vida não chegava a trinta imagens. Felipe Rissato apresenta um total de 46, quantidade expressiva quando se sabe que a preservação de retratos, naquela época, era muito precária.
O pesquisador percorreu o país e garimpou informações em acervos do Pará, Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná. Além de imagens, detalhes relacionados a elas: o fotógrafo, o local, a data ou ainda a quem Euclides as enviou. “Um exemplar de uma famosa fotografia dele em perfil feita por George Huebner, em Manaus, por exemplo, foi entregue por ele ao senador Antonio Lemos, do Pará”, conta Rissato. A publicação traz ainda a última fotografia de Euclides em vida, feita dois dias antes de sua morte, quando saiu do Cinema Ouvidor, no Rio de Janeiro, na companhia de dois amigos. “Naquele dia, segundo relatos desses amigos, assistiram eles a um filme de faroeste em que uma mulher traía o marido. Era essa a única referência. Pesquisando, descobri que o filme assistido foi ‘A Noiva do Cowboy’, (The Mexican Sweethearts), de D. W. Griffith”. “O livro abre com uma imagem de Euclides aos 9 anos, com olhar penetrante, postura incisiva pronta para enfrentar o mundo. Essa visão sofreu mutações ao longo dos bons e maus momentos da sua vida pública e privada. A última série de fotos traz Euclides com as maçãs do rosto salientes, um vasto bigode, um olhar duro, entristecido, como se o aguardasse a hora fatal de acertar as contas com o destino”, descortina Felipe sobre o rodriguiano fim de Euclides, um autor cuja própria vida renderia um romance.
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“Iconografia de Euclides da Cunha”, de Felipe Rissato, da editora Instituto Memória, a venda na Fox Doutor Moraes.
(Diário do Pará)
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