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Pará
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Domingo, 14/03/2010, 10h47

Crianças: maiores vítimas da raiva humana no Pará

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Crianças: maiores vítimas da raiva humana no Pará
O neto de Rosa Praxedes adoeceu após voltar de pescaria e morreu

O Pará teve quase 900 casos de raiva humana em 2009. Um número preocupante, que serve de alerta, mas que não se compara com o verdadeiro surto da doença ocorrido em 2005, quando quase nove mil pessoas foram atingidas pela raiva. No início do mês, Belém acolheu um simpósio sobre o assunto no Museu Emílio Goeldi. Uma constatação acendeu a luz amarela da atenção. São as crianças as mais atingidas pela raiva humana no Brasil e, mais notadamente, no Pará. E um tipo específico de morcego tem sido responsável pelos principais casos da doença no Estado.

Alberto Begot, médico veterinário da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) disse, no simpósio, que as agressões de morcegos em crianças são maioria no Pará. Dados parciais apresentados por ele mostram que as agressões por morcegos em humanos tiveram uma diminuição a partir de 2005, mas que a ameaça ainda não está de todo debelada. Em 2005 foram 8.601 casos registrados. Já em 2009 foram 830. Essa quantidade de casos se baseia no número de doses de vacinas aplicadas pelo Estado.

O especialista da Sespa apontou outro dado importante. Os quirópteros, espécie de morcegos hematófagos, presentes nas comunidades ribeirinhas, são responsáveis pelos maiores índices da doença. A maior incidência foi registrada em Portel, no Marajó, com 3.190 casos desde 2004. Em seguida vem o município de Augusto Corrêa, no nordeste paraense, com 2.711 casos. Ambos, com forte presença de comunidades pesqueiras.

“As crianças estão mais vulneráveis às mordidas por serem em maior quantidade, não por preferência do morcego”, diz Wilson Uieda, biólogo do Departamento de Zoologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, responsável pela pesquisa que estudou a distribuição dos morcegos hematófagos na Amazônia e sua relação na transmissão da raiva.

Outro fator que leva as crianças a serem as mais agredidas por esses animais são as moradias. As populações ribeirinhas da Amazônia, em sua maioria, vivem em palafitas ou em casas de madeira e barro coberta de palhas, dormindo em redes e sem a proteção adequada contra esses animais. Além disso, sendo o barco o meio de transporte mais comum, crianças e adultos ficam mais suscetíveis a ataques noturnos.

Casos marcam as histórias de famílias

Em Augusto Corrêa, os casos ainda trazem lembranças ruins às famílias. Pelo menos 14 pessoas morreram na comunidade do Araí, um povoado rural pertencente ao município. Na casa de Rosa Silva Prexedes, uma mulher de cabelos brancos que nem sabe a própria idade, a morte de Dijône Silva de Souza ainda é lamentada. Dijônio, como era conhecido, morreu aos 16 anos.

“Ele tinha ido pescar. Apareceu num dia com uma dor no corpo. Nem podia andar. Foi pra Belém. Voltou de lá todo costurado, já morto”, diz Rosa Silva, que criou o adolescente, neto dela, ‘desde gitinho’. “Ele era um menino bom”, diz o avô Benedito Ferreira da Costa, 75 anos, pescador aposentado.

Antonio Carlos Silva, 42 anos, perdeu a filha Ruthcléia, de dez anos. “O morcego mordeu a cabeça dela. Ela ficou seis dias doente. Ficava falando besteira sozinha. Nem chegou a ser atendida. Aqui no Araí todo mundo tem uma história pra contar sobre essa doença”, diz ele.

Ruthcléia e Dijônio sobrevivem na lembrança de todos em fotos restauradas e emolduradas. Fazem parte da memória da família. Mas em Araí teve gente que sobreviveu de forma real. “Teve o Raimundo Nonato, filho do Érico, que foi atacado, se recusou a tomar remédio, dizendo que queria morrer em casa e está tirando caranguejo até hoje aí no mangue”, diz um morador de Araí. Nonato estava no mangue na manhã em que o DIÁRIO foi conferir de perto o prodígio que a ciência teimaria em aceitar como real.

DESEQUILÍBRIO

Para os moradores do Araí, a explicação mais plausível para a grande quantidade de casos de raiva humana causada por morcegos por aquelas bandas, foram os desmatamentos. “O problema começou lá por Viseu. Uma ilha foi totalmente desmatada e tinha uma caverna por lá. É quase certo que foi isso que motivou os ataques”, confirma o veterinário Sandro Pinheiro, que atua em Augusto Corrêa. No auge do surto, em 2005, Pinheiro chegou a passar três meses nas matas locais, capturando morcegos.

Se um novo surto ocorresse agora, o veterinário sofreria mais. A equipe dele está reduzida a ele e mais um técnico. Os outros foram demitidos por serem temporários. “Estou sem equipe para trabalhar”, diz ele, que espera a chegada de mais quatro técnicos.

Dois filhos mortos em menos de um mês

Em Cachoeira, outro povoado ligado a Augusto Correa, a doença matou pelo menos nove pessoas. É o que lembram os moradores locais. Quase ninguém, no entanto, perdeu tanto quanto Elza de Lima Medeiros, que em menos de 25 dias teve dois filhos mortos, vitimados pela raiva humana. Elza morava com a família numa localidade chamada Piçarreira, sem energia elétrica.

“Num final de semana, minha menina de quatro anos estava ‘triste’. Perguntei se doia alguma coisa e ela disse não. Ficou assim no sábado inteiro. No domingo ela pedia água, mas se ‘afogava’ na hora de beber. Na segunda, esperei o médico de Araí chegar. Ela foi piorando, se batia. Às 11h15 da noite de segunda, ela morreu”, conta a mãe.

Vinte e três dias depois morreu o outro filho de Elza, que passou a achar a casa assombrada. Via fantasmas. Não conseguia dormir. Ficava se perguntando se iria acontecer a mesma coisa com os outros filhos. “Eu entrei em depressão e fiquei quase louca. Achava que todos iriam morrer”, lembra.

A história da morte dos filhos de Elza entra nas estatísticas oficiais. “De 1980 até 2009, 79% dos casos de raiva humana no Brasil foram ocasionados por morcegos”, lembra Marcelo Wada, responsável pelo grupo técnico da raiva, vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, em Brasília (DF).

“Ainda lutamos para controlar a disseminação do vírus”, diz Sandro Pinheiro. “Mas entendemos que essa região bragantina é mais complicada. É mais difícil capturar morcegos no mangue. Com isso ocorrem muitas agressões na maré, principalmente em pescadores que ficam em ‘ranchos’ quando vão pescar”. “Eu já fui mordido 14 vezes no pé. Mas acho que meu sangue é resistente”, brinca Antonio Carlos, pai de Ruthcléia, antes de olhar mais uma vez para a foto da filha, vestida para dançar quadrilha.

VÍRUS

O vírus rábico pertence à ordem Mononegavirales, família Rhabdoviridae e gênero Lyssavirus. A transmissão da raiva se dá pela penetração do vírus contido na saliva do animal infectado, principalmente pela mordedura - e, mais raramente, pela arranhadura e lambedura de mucosas.

CONTÁGIO

O vírus penetra no organismo, multiplica-se no ponto de inoculação, atinge o sistema nervoso periférico e, posteriormente, o sistema nervoso central. A partir daí, dissemina-se para vários órgãos e glândulas salivares, onde também se replica e é eliminado pela saliva das pessoas ou animais enfermos.

VACINA

Todos os mamíferos são suscetíveis à infecção pelo vírus da raiva. A imunidade é conferida por meio de vacinação, acompanhada de soro. Dessa maneira, pessoas que se expuseram a animais suspeitos de raiva devem ser vacinadas, assim como indivíduos que, em função de suas profissões, se mantêm

constantemente expostos. (Diário do Pará)

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