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Quarta-feira, 21/04/2010, 09h25

Cabanagem: o povo na luta pela igualdade

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O povo do Pará jamais pestanejou quando teve que pegar em armas para defender seus ideais. Por conta disso, milhares deram suas vidas por uma sociedade que acreditavam mais justa. No cenário político das quatro primeiras décadas do século 17, especialmente entre os anos de 1835 e 1840 (dentro, portanto, do período regencial do Brasil) o restante do País e do mundo conheceu essa pujança quando um exército formado por negros, índios e mestiços se revoltou contra a miséria das populações ribeirinhas e a representatividade insignificante da então província em relação à capital federal (Rio de Janeiro). Não por acaso, a revolta popular entrou para a história como Cabanagem, nome que homenageou justamente as cabanas, habitações onde viviam os escravos libertos, índios e mestiços, nas palafitas, e áreas de maior pobreza do Estado.

“Muitos historiadores, há até bem pouco tempo, acreditavam que o momento de integração do Pará ao Brasil era demarcado pela adesão do Pará à independência do Brasil. No entanto, esta integração foi bem mais lenta e gradual e a Cabanagem foi um momento chave no processo inicial de criação de identidades: tanto as locais como a nacional brasileira. Estudar a Cabanagem, hoje, é central para se discutir conceitos históricos como os de pátria, nação e nacionalidade, bem como os limites antigos e atuais das liberdades sociais e constitucionais”, comenta a professora e historiadora Magda Ricci, uma das maiores pesquisadoras do assunto.

O movimento, que pode ser rememorado cada vez que se chega ou sai de Belém, através do memorial projetado e construído em sua homenagem, pelo arquiteto Oscar Niemeyer, há 25 anos, faz parte da nossa história e ajudou a mitificar o povo paraense como aguerrido, contribuindo para que as classes populares chegassem ao poder no Pará. “Acredito que é um mito esta ideia de que o povo brasileiro e o paraense é, e sempre foi, pacífico. As lutas e movimentos sociais por aqui sempre foram intensas. Além disto, no dia-a-dia, os paraenses - de ontem e de hoje - enfrentam “batalhas” cotidianas que comprovam que não temos esta característica de forma absoluta”, constata a historiadora. Como já se adiantou, a grande maioria do exército cabano era formada pelas camadas mais pobres da sociedade, entretanto, e surpreendentemente, personagens das classes média e alta também lutaram contra as desigualdades, como foi o caso do cônego João Batista Gonçalves Campos, dos irmãos Vinagre, do fazendeiro Félix Clemente Malcher e do jornalista Vicente Ferreira Lavor Papagaio.



LIDERANÇAS

A confusão sacudiu verdadeiramente o Pará logo nos primeiros dias de janeiro de 1835, mais precisamente no dia 6. Os rebelados, liderados por Antônio Vinagre, invadiram tanto o quartel quanto o palácio do governo de Belém, mataram o presidente da província, Lobo de Souza, mais o comandante de armas e se apoderaram de todas as armas disponíveis. Latifundiário, tenente-coronel, dono de engenhos de açúcar e acostumado às benesses do poder, Clemente Malcher assumiu a presidência da então província do Grão-Pará, nomeou Francisco Vinagre para o comando da força policial e logo mostrou de que lado estava, beneficiando a classe social a que pertencia. Foi deposto e assassinado um mês e meio depois.

Mais acostumados a tiroteios, emboscadas e trincheiras, Francisco Vinagre, Eduardo Angelim e os demais cabanos, desde cedo, demonstraram não ter a mesma aptidão para assuntos políticos e diplomáticos, tanto que, em meio a uma porção de divergências ideológicas, cogitaram em se separar. Angelim foi preso a mando do ainda presidente Malcher e isso levou ao confronto entre as duas tropas. Francisco Vinagre, venceu, tomou a dianteira e passou a acumular a presidência e o comando policial da província. Como se pôde perceber logo em seguida, as doçuras do poder também levaram Vinagre a se afastar dos antigos ideais.

O novo presidente, sem pulso firme, inclusive, entregou o governo ao poder imperial. Não conseguiu evitar a derrota do movimento quando encontrou pela frente uma esquadra muito bem treinada e comandada pelo almirante Taylor. Restou aos cabanos a fuga para o interior do Pará, a reorganização das ações e a volta a Belém, já em agosto do mesmo ano. Foram nove dias de uma batalha sangrenta, com centenas de mortos de ambos os lados, mas que terminou com o retorno do grupo ao poder. Na ocasião, os rebeldes começaram atacando através dos bairros de São Brás e Nazaré. Uma das baixas mais sentidas foi o ponderado Antônio Vinagre, cuja astúcia influenciava as ações dos demais rebelados.



Império impôs a sua força

Veio o governo de Eduardo Angelim, e até que, nos dez meses seguintes, o líder conseguiu intimidar o grupo elitista que outrora mandava e desmandava na região. Contudo, a desorganização das ações políticas mais uma vez prejudicou o sonho cabano da implantação de uma sociedade mais igualitária. A coisa mais fácil era encontrar famintos pelas ruas, bagunça generalizada e a capital do Pará contaminada por um surto de varíola. Foi o suficiente para o império nomear, já em março de 1836, o brigadeiro Francisco José de Sousa Soares de Andréa como novo presidente da província do Grão-Pará e deflagrar guerra sem limites aos cabanos. Dois meses depois Andréa chegou com uma esquadra de quatro navios, parou na baía do Guajará e, com Belém à sua frente, descarregou todo o seu poderio de bombardeio.

Pode-se dizer que a Cabanagem acabou aqui. Os militantes cabanos tiveram que fugir para não ser destruídos. Eduardo Angelim também fugiu. O ex-presidente causava tanto receio às forças do império que o brigadeiro mandou que seus soldados o caçassem e o trouxessem com vida.

Angelim foi capturado em outubro de 1836 em uma tapera na selva, junto com a esposa. Preso na fortaleza da Barra, foi posteriormente transferido para o Rio de Janeiro. Os demais cabanos, sem comando, comida, abrigos, água, com pouca munição e sem perspectivas, não tiveram a mesma sorte. Tentaram resistir dentro da selva, mas, segundo relatos de historiadores, foram simplesmente massacrados.

Por que se orgulhar?

A Cabanagem foi um movimento que agregou a rica diversidade étnica paraense, lutou contra desigualdades sociais e a representatividade inexistente da província do Estado em relação à capital federal. É considerado um dos principais movimentos rebeldes do Brasil Regência e ainda nos dias de hoje pesquisado por seu caráter único, já que foi considerada, por historiadores, a primeira revolta em que as camadas populares chegaram, efetivamente, ao poder, na história do Brasil.

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