Terça-feira, 27/04/2010, 10h56
Qual nortista nunca passeou de canoa, aquela embarcação leve, construída em madeira, guiada a remo, vela ou motor de popa, e que é um dos meios de transportes mais usados pelos ribeirinhos da Amazônia? Para os que não sabem, esse instrumento criado pelos índios já deslizava nos rios e igarapés muito antes de Pedro Ávares Cabral aportar no Brasil, em 1.500. No período colonial, no século XVII, os Bandeirantes costumavam usar a canoa ou “caiaque”, como é mais conhecido no sul e sudeste do país, para ir em busca de ouro e pedras preciosas na região do oeste brasileiro.
Uma acelerada no relógio do tempo e a canoagem é, hoje, um esporte muito praticado no país e chama a atenção de muitos atletas por aliar o contato direto com a natureza, a sensação de liberdade e o exercício físico. Tudo ao mesmo tempo. O Pará é um dos Estados que se destacam na canoagem e, recentemente, vem inovando nessa prática de forma a torná-la mais popular entre os ribeirinhos, que passam a não ter na canoa apenas um meio transporte, mas um objeto de competição esportiva e de lazer.
Em fevereiro deste ano, a canoagem dos ribeirinhos foi aprovada como modalidade esportiva pela Confederação Brasileira de Canoagem - CBC, cuja sede fica em Curitiba (PR). A transformação dessa atividade, antes pertencente apenas ao cotidiano amazônico, traz a reboque outras mudanças, de acordo com a Federação de Canoagem do Pará, como a implantação da disciplina “Canoagem” na grade curricular das escolas públicas das regiões de rios e igarapés, no Estado; sem contar as competições locais, estaduais e nacionais. “Trata-se da valorização de uma prática esportiva que está aí desde o primórdios, bem como dos próprios moradores da Amazônia que passam a ver nisso uma oportunidade de inclusão social”, afirmou Evaldo Malato, presidente da Federação e um dos maiores resposáveis pela consolidação da canoagem riberinha em novo esporte.
No último dia 20 de abril, Evaldo deu o primeiro passo importante para divulgação dessa prática esportiva entre os amazônidas, partindo de Manaus (AM), numa expedição pelo rio Amazonas, um dos maiores do mundo, até a cidade de Santarém, no Pará, percorrendo mais de 2.500 quilômetros em cerca de 25 dias. Nesse período, os participantes da viagem (canoistas do Pará Amazonas, Rio de Janeiro e Paraná), além da contemplação das belezas naturais e do enfrentamento dos obstáculos típicos da região, distribuíram donativos às comunidades ribeirinhas ao longo do rio.
PARCERIAS
Através de parcerias firmadas com diversas instituições, eles conseguiram reunir uma quantidade significativa de alimentos, brinquedos e cerca de 30 mil livros a serem doados às comunidades ribeirinhas. A realização de palestras educacionais com temas específicos como a preservação ambiental também consta neste pacote. “Nossa intenção é despertar, não apenas no Brasil, mas sim em todo o mundo, a conscientização das responsabilidades sociais e ambientais que as pessoas precisam ter. Estamos fazendo nossa parte com o intuito de disseminar essa ideia e fazer dessa viagem um exemplo para muitas outras”, afirma Evaldo Malato. De acordo com ele, duas expedições anteriores foram realizadas quando o esporte ainda não estava oficializada pela CBC. No entanto, essa terceira etapa acontece de uma forma mais madura e com mais credibilidade de seus apoiadores. “As pessoas não nos olham mais como malucos aventureiros. Agora, somos vistos como exemplos de cidadania e a cada dia que passa conseguimos mais parcerias para este projeto que tanto nos orgulha”, completou Malato.
Entre atletas, componentes da Associação Ecológica de Canoagem e Vela de Belém (Aecavbel) e das Federações do Pará e Amazonas, a expedição ainda conta com policiais militares para prestarem segurança ao grupo e de um jornalista e uma publicitária. Os dois últimos ficarão responsáveis por documentar todo o trajeto da equipe.
Além de apaixonado pela canoagem, Evaldo Malato é autor de um dos estudos mais completos sobre essa modalidade esportiva no Pará. “Prática da Canoagem como modalidade esportiva em Belém do Pará - um ensaio historiográfico” é o nome da monografia apresentada por ele, em 1999, ao curso de pós-graduação em Educação, do Centro de Educação da Universidade Federal do Pará.
Nesse trabalho, Malato afirma que a canoagem no Pará, enquanto modalidade esportiva, teve seus primeiros praticantes em Santarém, onde também foi criada a Associação Santarena de Canoagem e Ecologia, a primeira dessa categoria fundada no Estado. Em 1992, foi realizada a primeira expedição esportiva: “Aventura de Caique pelo rio Amazonas Manaus-Santarém”, que percorreu cerca de 1.000 km em 11dias.
No ano seguinte, a expedição se repetiu fazendo o mesmo percurso, com o dobro de remadores, dentre eles Hiel Gesã, um santareno que já foi oito vezes campeão brasileiro de canoagem oceânica. Segundo o estudo, talvez Hiel seja o maior remador paraense até os dias atuais.
De lá para cá, as aventuras de caiaque pelo rio Amazonas continuaram e agora agregam, para orgulho do Pará, seus praticantes mais comuns: os ribeirinhos da Amazônia.
Por que se orgulhar?
A canoagem é um esporte que tem no Pará uma de suas origens mais remotas, pois nossa hidrografia é repleta de rios, lagos e igarapés que favorecem essa prática. Além disso, a canoa é um dos principais meios de transporte de nossos ribeirinhos. Recentemente, a canoagem praticada por esses habitantes típicos da Amazônia foi reconhecida como competição pela Confederação Brasileira da modalidade, representando um marco histórico na história desse esporte.
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