Notícias Esporte Você Comunidade

ENCHENTES

Banco da Amazônia tem crédito para as vítimas

Você
Publicidade

Domingo, 20/06/2010, 09h35

Belém assiste ao fim das livrarias

Tamanho da fonte:

A exemplo de outras, Jinkings anuncia que fechará suas portas

A conformação é incapaz de encobrir a tristeza de dona Isa. Ela, que passou mais da metade da vida entre pilhas de livros e leitores ávidos, revela com pesar e com naturalidade particular expressa em voz firme: a histórica livraria Jinkings, fixada há quase 45 anos no entorno da Praça Batista Campos, fechará as portas no próximo mês.

A notícia está longe de soar imprevisível, já que um anúncio de promoção permanente estampa as vitrines há tempos e o deserto que se tornou o espaço há alguns anos impede qualquer surpresa. De referência turística e ponto de encontro de intelectuais a lugar quase desabitado, a casa passa a integrar o grupo de livrarias extintas em Belém. Sentada em uma das cadeiras estampadas que rodeiam a mesinha no centro da loja, dona Isa Jinkings lamenta. “No mínimo quatro gerações se abasteceram de cultura aqui. Mas hoje as megalivrarias englobaram tudo. Temos uma história muito bonita, mas infelizmente isso não paga as contas. Sem suporte fica impossível seguir adiante”.

 A verdade é que hoje quem quer comprar livros vai à internet, à farmácia, ao supermercado, à locadora. As livrarias tradicionais foram obrigadas a dar lugar à multiplicação das livrarias de shoppings. Para o jornalista Elias Pinto, colunista e crítico literário do DIÁRIO, esse é um caminho inevitável. “Já que os corredores dos shoppings são as ruas de hoje, naturalmente as livrarias se mudaram para lá”, diz.

“Belém nunca chegou a ter um número expressivo de livrarias, mas já teve algumas de qualidade, atualizadas e com um bom estoque: a Agência Vecchi, a Agência Martins, a Dom Quixote, a Livraria Maranhense, o Sebo do Dudu. Ocorre, de um lado, que as novas gerações de leitores - leitores de livros, frise-se – também escassearam, e o ramo, como vários outros, ressentiu-se da falta de segurança, e do cada vez mais tormentoso problema de estacionamento. Além disso, hoje boa parte da clientela prefere comprar pela internet. Mas se um dia tivermos um prefeito que promova a urbanização e civilização das nossas ruas, incluindo o centro histórico, as livrarias terão seu lugar nesse cenário”.

Por outro lado, o fortalecimento do mercado de edições de bolso também tem influência  nesse movimento, favorecendo a onipresença do livro nas mais diversas prateleiras ao aliar qualidade a preços absolutamente aceitáveis. Os leitores comemoram.

“Bem-cuidado, com boa apresentação gráfica e traduções, em geral, de qualidade, o livro de bolso, também pelo preço e tamanho, tem conquistado novos espaços, aberto novas fronteiras, indo além das livrarias”, diz Elias.

>> Elias Ribeiro diz que livreiros precisam se adaptar à nova realidade do mercado *(Foto: Adauto Rodrigues)

REINVENTAR

Se Belém hoje vê a decadência de suas livrarias tradicionais, por outro lado observa a Feira Pan-Amazônica do Livro, em sua 14ª edição, se tornar um dos eventos literários mais expressivos do país - atrás apenas das Bienais do Livro de São Paulo, Rio de Janeiro e da Feira do Livro de Porto Alegre - e se consagrar como uma das maiores feiras do livro da América Latina.

O segredo? Os shows musicais, saraus, exposições e mostras de cinema são um tempero indispensável nessa receita, assegura o diretor de cultura da Secult, Carlos Henrique Gonçalves.

“As feiras conseguem ser mais que um local para a compra de livros – são um espaço criativo de encontros, ao absorver linguagens artísticas, incorporar novos formatos, oferecer uma programação cultural diversificada. Isso também é ferramenta indispensável para promover a assimilação do hábito da leitura”, acredita. No ano passado, segundo dados do Instituto Mentor, a feira reuniu mais de 500 mil pessoas.

Seguindo esse caminho, o Salão do Livro da Região do Baixo Amazonas, ação de interiorização da Feira do Livro em Santarém, encerrou a terceira edição nesta sexta alcançando um público recorde de 73 mil pessoas em sete dias, de acordo com a organização do evento. Na próxima sexta, o salão chega a Tucuruí, ostentando a satisfatória média de 180 visitantes, somando-se as três edições.

Para Gonçalves, a mesma equação, que tem na programação cultural seu ingrediente chave, deve ser aplicada ao ambiente das livrarias e bibliotecas. Para conquistar leitores, há que se repensar o papel destes espaços e apostar na versatilidade - antes que seja inevitável (e irreversível) fechar as portas.

“Vivemos um momento ímpar de democratização do acesso à informação, e isso exige que as livrarias, assim como as bibliotecas, repensem sua relação com o cliente. É necessário que se tornem espaços mais atrativos, mais dinâmicos para estimular uma relação cultural e educativa com o livro”, diz.

Para Elias Pinto, a verdade é que o livreiro de hoje precisa estar antenado, criar múltiplos canais de contato com seu público-alvo e outros públicos em potencial, buscar o leitor onde ele está, reinventar-se.

“A maioria das livrarias que restaram em Belém não tem páginas virtuais dinâmicas, interessantes, interativas. Também não explora as comunidades de relacionamento, o que seria interessante, por exemplo, para atingir adolescentes e jovens conquistados por essa saga literária juvenil de vampiros, que sucedeu ao Harry Potter e sua turma de Merlins repaginados. Como se vê, até temos novos leitores, o que não temos são novos livreiros, novo não só quanto à sucessão ou faixa etária, mas também disposto a renovar-se”.

MEMÓRIA

 A historia da livraria Jinkings começa em um pequeno bangalô na rua dos Mundurucus, a própria casa da família. “Aqui era muito carente de livros, mandávamos buscar via reembolso postal - na maioria, livros didáticos mimeografados, de literatura portuguesa e brasileira. Naquela época, atuando como representantes, vendíamos para os livreiros”, conta dona Isa, relembrando sua trajetória ao lado do marido, já falecido, Raimundo Jinkings. 

Em 1979, quando as pilhas de livros já dominavam quase todos os cômodos da casa, e já havia se fortalecido o vínculo com as editoras, o casal decidiu atravessar a rua e construir uma livraria tradicional na rua dos Tamois, interligada, pelo quintal, à antiga residência.

“As pessoas começaram a nos procurar com tanta ansiedade, com tanta avidez, que resolvemos entrar no varejo. Construímos a livraria usando o espaço de duas casas. Nos altos, um grande salão ao qual chamamos Espaço Cultural, era uma bagunça que as pessoas adoravam, livros espalhados por todos os cantos. A casa vivia lotada, principalmente por jovens sedentos por conhecimento depois da repressão”, conta ela.

Ruy Barata, Benedito Nunes, Machado Coelho eram presenças constantes por lá.  Mais tarde, Ziraldo, Ligia Bojunga e Ruth Rocha também.

>> Isa Jinkings lamenta o fechamento de uma das mais tradicionais livrarias de Belém *(Foto: Adauto Rodrigues)

Naquela época, longe do fantasma dos juros e dos cartões de plástico, as retiradas de livros eram registradas em um velho caderninho, com nomes e valores devidamente anotados, para que o cliente pagasse quando pudesse. O negócio prosperava: houve uma época em que existia filiais no shopping, em Santarém, Castanhal, no Colégio Moderno, na Doca e até no Amapá. Com o tempo, foram fechando, uma a uma, restando apenas a matriz, na Praça Batista Campos – com seus atuais quatro andares abarrotados de livros.

“Acho que hoje temos mais de 30 mil exemplares, nem sei dizer”, pensa dona Isa, com o olhar distante. Deve haver bem mais que isso. “A partir do mês que vem, parte desses livros será vendido como papel, por peso, pra não termos que pegar e tocar fogo”, diz. Para o futuro, há planos de abrir uma nova loja, bem menor, mais modesta, apostando também em artigos de decoração e antiguidades, ali onde tudo começou: na rua dos Mundurucus. “Mas por enquanto, é essa melancolia”, encerra.

(Diário do Pará)

Comentários Recentes

  • Euvaldo Cotinguiba Gomes disse: Comentário postado em 29/06 Terça-feira às 11:03h "Olá todos,

    Infelizmente temos que ler e escutar asneiras de pessoas totalmente (ig)norantes sobre a realidade de mercado em que nos encontramos, triste ler argumentos relacionados a preços e modernização quando se discute o encerramento de uma atividade como a dos pequenos livreiros espalhados pelo Brasil. A realidade de fechamento de livrarias pelo Brasil vem acontecendo há anos e somente os mais resistentes tem aguentado a situação a que estamos impostos. As grandes redes concedem descontos porque exigem dos editores descontos exorbitantes, impõem ao mercado um preço de capa distorcido, pois exigem daqueles que se sujeitam a lhes fornecer descontos mínimos em torno de 50% a 60% para que possam financiar sua disputa de mercado desleal com os pequenos, temos de 20% a 40% no máximo. Como competiremos se temos situações tão diferentes? Como podemos disputar com quem tem seus negócios financiados por grandes bancos nacionais enquanto não conseguimos créditos mínimos para o fluxo de caixa se quer? Como enfrentaremos a ditadura do mercado e dos "best books" feitos para vender milhões e emburrecerem cada vez mais os desavisados que os lêem?
    Abraços aos resistentes da Jinkings"
  • Raimundo Costa disse: Comentário postado em 24/06 Quinta-feira às 16:23h "É realmente uma pena para Belém, a Jinkings fechar. Eles fizeram uma reforma e até abriram (acho que no ano passado ou em 2008) um belíssimo e romântico café, onde faziam uns saraus literários muito interessantes, que frequentei umas três ou quatro vezes. Enfim, tentaram... Mas o público prefere mesmo é comprar porcarias; os livros - e a cultura - ficam sempre em último plano.
    A Jinkings vai fazer falta, se fechar mesmo.
    "
  • Julio Baptista disse: Comentário postado em 23/06 Quarta-feira às 19:46h "Uma pena a Livraria Jinkings fechar. Como D. Isa disse, gerações se alimentaram dos livros, que eram generosamente parcelados. Uma pena que as livrarias tradicionais, criadas por intelectuais importantes como o Jinkings, tenham dado lugar aos supermercados repletos de bobagens. A Jinkings ficará para a história, os oportunistas passarão, lembrando o poeta Mario Quintana. Saudações, dona Isa!"
  • marcos andre costa disse: Comentário postado em 22/06 Terça-feira às 09:13h "há pouco tempo, procurei em Belém o livro "guia políticamente incorreto da história do brasil". Pra começar, ele nao existia em quase nenhuma livraria - nem mesmo nas dos shoppings. Depois, encontrei na fox video - a R$ 40,00. Pesquisando na Internet, comprei por R$23,90 - com frete grátis. Ou seja: esperei por uma semana e já estou com o livro. Apesar da evidente realidade que a Internet representa, o pessoal daqui insiste em tentar fazer com que nos vejamos numa ilha. a coisa mais fácil, hoje, é fazer comparação de preços. mas os comerciantes de Belém nao se atualizam... só querem saber de reclamar. Tratam os clientes como se fossem idiotas, desantenados da realidade. assim, realmente, fica difícil crescer. E isso sem falar no site "mercado livre". Eu, por exemplo, hoje, já nao compro quase nada em Belém: tudo é mais caro, defasado, e os atendentes de loja quase nunca conhecem o produto que vendem, ou sabem dar informações seguras sobre um produto. sinceramente, só lamento pelo lado cultural. mas que isso sirva de lição para outras lojas daqui. Quero ver quando magazines imensos como o extra e o wal-mart aportarem aqui. Yamada que se cuide..."
  • georgia gomide disse: Comentário postado em 22/06 Terça-feira às 08:57h "a reclamação dos donos de lojas é apenas um dos lados da questão. Na nossa visao (de clientes) falta também dinamismo dessas empresas - que passam anos adotando as mesmas táticas comerciais, nao se repaginam ainda que o mercado mostre essa necessidade. Se o usuário de hoje compra pela Internet, por que, por exemplo, a Jinkings nao criou um site? Além disso, ha a questao dos preços: tudo, aqui em Belém, é mais caro do que o mesmo produto vendido em lojas como o "submarino" e a "americanas virtual", por exemplo. Sem contar a evidente defasagem tecnológica: o que é novidade sempre demora a chegar aqui. Experimente comparar o preço de uma lcd no magazan, por exemplo, e no "submarino". é a regra do mercado: quem nao se atualiza, nao se qualifica, vai à falência. nao adianta ficar só reclamando..."
Mostrar mais comentários [+]
Siga-me

Lojas do Tem! (Classificados)


IT Center
Shopping Pátio Belém - 2o piso
Shopping Castanheira - 1o piso
Gaspar Viana, nº 778
Yamada Plaza (Av. Gov. José Malcher)
Yamada Plaza (Castanhal)
Formosa Duque (Subsolo)
Formosa Cidade Nova (Subsolo)
RBA - Av. Almirante Barroso, 2190


Call Center Tem! (Classificados)
(91) 4006-8000

Fale Conosco

(91) 3084-0100

Central do Assinante

(91) 4006-8000

Endereço

Av. Almirante Barroso, 2190
CEP 66095.000 - Belém-PA

Redação


(91) 3084-0119
(91) 3084-0120
(91) 3084-0126
(91) 3084-0100

Ramais: 0209, 0210 e 0211